Pesquisadores das universidades de Münster e Bochum, na Alemanha, observaram em tempo real que neutrófilos — os glóbulos brancos mais abundantes do sangue — utilizam catecolaminas, como dopamina, adrenalina e noradrenalina, para se comunicar durante processos inflamatórios. O achado, publicado na revista Advanced Science, amplia a compreensão sobre o papel químico dessas células além de suas funções de defesa imediata.

O que foi descoberto

O estudo revela que neutrófilos possuem a maquinaria necessária para captar, armazenar em vesículas e liberar catecolaminas em resposta a estímulos, de modo análogo ao mecanismo sináptico dos neurônios. Essa liberação química ocorre em resposta a sinais específicos durante a inflamação e age como um modulador local das respostas imunes e vasculares.

Como foi observado

Para registrar o processo ao vivo, os cientistas empregaram nanosensores construídos com nanotubos de carbono de parede única, sensíveis a catecolaminas. Os sensores foram dispostos em placas de vidro e as células neutrófilas colocadas sobre eles. Quando as células liberavam dopamina ou adrenalina, os detectores sinalizavam e uma câmera registrava a liberação em tempo real. Segundo os responsáveis pelo trabalho, a técnica superou limitações técnicas anteriores que impediam capturar emissões rápidas e em baixas concentrações por células individuais.

O que dispara a liberação

Os experimentos indicaram três principais estímulos capazes de induzir a liberação de catecolaminas pelos neutrófilos: serotonina liberada por plaquetas ativadas, componentes bacterianos como o lipopolissacarídeo (LPS) e outras moléculas de sinalização inflamatória. A secreção acontece em questão de segundos e é precedida por um pico de cálcio intracelular — paralelo ao que ocorre em neurônios, embora em escalas temporais diferentes (milissegundos nos neurônios e dezenas de segundos nos neutrófilos).

Efeitos no organismo

As catecolaminas liberadas pelos neutrófilos desempenam papel regulador na inflamação: reduzem a formação excessiva de armadilhas extracelulares, que são estruturas usadas para capturar microrganismos mas que podem lesar tecidos em excesso, e ao mesmo tempo aceleram a agregação de plaquetas, iniciando processos de coagulação. Dessa forma, estabelece-se um circuito de feedback direto entre respostas imunes e o sistema vascular, mediado pelas mesmas substâncias químicas.

Neutrófilos usam dopamina e adrenalina para se comunicar, mostram cientistas em tempo real

Imagem: Divulgação

Confirmação em humanos

Para verificar se o fenômeno ocorria fora do modelo de laboratório, os pesquisadores analisaram o perfil genético de voluntários saudáveis submetidos a uma injeção controlada de componentes bacterianos, um protocolo usado para estudar inflamação sistêmica humana. Os dados mostraram que, durante a resposta inflamatória, os neutrófilos alteram ativamente seus receptores para catecolaminas e modulam os programas de produção e degradação dessas moléculas — um padrão bifásico que apresenta primeiro redução e em seguida forte ativação, indicando calibração do sistema diante da inflamação.

Os coordenadores do estudo afirmaram que as observações desafiam a visão tradicional dos neutrófilos como células apenas “soldadas” e acrescentam evidências de semelhanças funcionais entre células imunes e neurônios no manejo de neurotransmissores.

Com informações de Olhardigital