Nos últimos dias, moradores de diversas cidades do Golfo registraram mísseis e drones sobrevoando o céu noturno, com clarões visíveis provocados por sistemas de defesa aérea que interceptaram parte das ameaças. Vídeos de interceptações em locais como Dubai e Abu Dhabi, nos Emirados Árabes Unidos, circularam rapidamente nas redes sociais, expondo ações de uma infraestrutura de segurança que normalmente opera em sigilo.

Autoridades da região pediram à população que evite filmar ou compartilhar imagens de interceptações e operações militares, alegando que esse material pode revelar informações sensíveis sobre táticas e posicionamentos das defesas.

A escalada começou após o Irã lançar ondas de mísseis e drones contra vários países do Golfo, em retaliação a ataques dos Estados Unidos e de Israel que, segundo a reportagem, mataram o líder supremo iraniano, Ali Khamenei. As ofensivas desencadearam respostas de defesa aérea em toda a região.

Emirados Árabes Unidos

Os Emirados mantêm uma defesa em camadas. No topo está o sistema THAAD (Terminal High Altitude Area Defense), da Lockheed Martin, que intercepta mísseis balísticos na fase final por meio do método “atingir-para-destruir”. Próximo ao solo, baterias Patriot, da Raytheon, atuam contra outras ameaças.

Desde 28 de fevereiro, o Ministério da Defesa dos Emirados informou ter detectado 196 mísseis balísticos em direção ao país. Desse total, 181 foram destruídos pelos sistemas de defesa aérea, 13 caíram no mar e 2 atingiram o território. As ações deixaram 3 mortos e 78 feridos, em sua maioria por destroços de interceptações. Instalações da Amazon Web Services (AWS) nos Emirados e no Bahrein foram atingidas, causando danos estruturais e quedas de energia.

O professor associado Andreas Krieg, do King’s College London, avaliou que a defesa antimíssil do Golfo é “taticamente capaz, mas estrategicamente pressionada”, destacando limites logísticos e custos elevados de interceptadores frente a atacantes que empregam drones baratos e ataques repetidos.

Arábia Saudita

A Arábia Saudita opera uma das maiores redes de defesa aérea da região, com forte dependência do sistema Patriot e do interceptador PAC-3 MSE, da Lockheed Martin. Autoridades relataram múltiplas interceptações de mísseis e drones, incluindo a destruição de 9 drones logo após cruzarem a fronteira e a interceptação de 2 mísseis de cruzeiro na província de Al-Kharj Governorate.

Alguns ataques miraram infraestrutura energética: drones próximos à refinaria de Ras Tanura foram interceptados, e destroços causaram um pequeno incêndio controlado. Fontes citadas pela Reuters afirmaram que o complexo voltou a ser atingido por um projétil dias depois.

Catar

No Catar, a defesa aérea está integrada à arquitetura regional, em especial pela presença da base aérea Al Udeid, principal instalação militar dos Estados Unidos na região. O país usa sistemas Patriot e radares como o AN/FPS-132, que alimentam um alerta antecipado compartilhado entre aliados.

O Catar informou ter interceptado 98 dos 101 mísseis balísticos lançados contra seu território, além de 3 mísseis de cruzeiro e 24 drones entre os 39 detectados. Krieg apontou que a integração regional é forte nas camadas de detecção e compartilhamento de dados, mas que decisões de engajamento permanecem sob controle nacional.

Imagem: Divulgação

Kuwait

O Kuwait ativou seus sistemas de defesa e também usa o Patriot para proteger centros urbanos e infraestrutura. Autoridades kuwaitianas relataram interceptações de vários drones e mísseis, e registraram casos em que destroços caídos após interceptações causaram danos e vítimas, devido à queda em alta velocidade de fragmentos.

Bahrein

O Bahrein, sede da US Navy Fifth Fleet, opera interceptadores PAC-3 e redes de radar. Desde o início dos ataques, as defesas do país teriam abatido 75 mísseis e 123 drones. Nem todas as ameaças foram neutralizadas: um drone atingiu um prédio em Manama, causando uma morte e danos materiais.

O International Institute for Strategic Studies observa que países menores do Golfo enfrentam limitações estruturais de defesa por território reduzido e menor profundidade militar, o que faz interceptações ocorrerem frequentemente próximas a áreas urbanas.

Omã

Omã não utiliza o sistema Patriot; aposta em defesas de menor alcance, como o Norwegian Advanced Surface-to-Air Missile System, e em redes de radar para monitoramento costeiro. Durante a escalada, o porto comercial de Duqm sofreu vários ataques de drones, e autoridades relataram ao menos um petroleiro próximo ao porto de Khasab, no Estreito de Hormuz, alvo de ataques.

Jordânia

A Jordânia também acionou seus sistemas de defesa, engajando dezenas de ameaças. O Exército jordaniano informou ter interceptado ao menos 13 mísseis balísticos e 49 drones. Destroços provocaram danos materiais, sem registro de vítimas. Devido à posição entre Irã e Israel, alguns projéteis cruzaram o espaço aéreo jordaniano e foram interceptados para evitar impactos em áreas habitadas.

Teste em tempo real

A sequência de ataques colocou em prova sistemas de defesa antimísseis do Golfo: redes de radar, interceptadores e arquiteturas em camadas evitaram danos maiores em muitos casos, mas demonstraram que mesmo sistemas avançados não eliminam todos os riscos quando enfrentam ondas repetidas e simultâneas de mísseis e drones.

Com informações de Olhardigital