Pesquisadores da Calif, empresa de segurança sediada em Palo Alto (Califórnia, EUA), relataram ter identificado um método que contorna mecanismos avançados de proteção do macOS. A técnica foi desenvolvida a partir de testes realizados em abril com uma versão inicial da inteligência artificial Mythos, da Anthropic.

Segundo a Calif, o procedimento combina duas falhas do sistema operacional com um conjunto de técnicas capazes de corromper a memória do computador e acessar áreas do dispositivo que deveriam ser inacessíveis. O mecanismo é classificado como um exploit de escalonamento de privilégios, tipo de ataque que pode, em combinação com outras vulnerabilidades, permitir o controle total de uma máquina.

O que diz a Apple

A Apple informou que está analisando o relatório da Calif para validar as conclusões apresentadas e ressaltou que utiliza modelos avançados de IA para testar e corrigir vulnerabilidades. “Segurança é nossa principal prioridade, e levamos muito a sério relatos de potenciais vulnerabilidades”, disse uma porta-voz da empresa.

Especialistas de segurança ouvidos no relatório afirmam que o caso ganha importância pelo alto nível de proteção que a Apple tem implementado no macOS. Em setembro do ano passado, a empresa divulgou a tecnologia Memory Integrity Enforcement (MIE), apresentada como resultado de um esforço de design e engenharia que teria levado cinco anos.

De acordo com a Calif, o uso do Claude, sistema de IA da Anthropic, permitiu desenvolver o código necessário para explorar as duas falhas em apenas cinco dias. Ainda assim, os pesquisadores destacam que o ataque não poderia ter sido realizado apenas pela IA e dependia fortemente da experiência humana da equipe.

O pesquisador Michał Zalewski, que revisou o estudo sem participar dos testes, afirmou ao The Wall Street Journal que a técnica é relevante justamente pelo nível de proteção implementado pela Apple. Já Thai Duong, diretor-executivo da Calif, disse que o Mythos mostra grande capacidade para reproduzir ataques já documentados, mas ainda não demonstrou habilidade consistente para criar técnicas totalmente inéditas.

Os pesquisadores da Calif reuniram suas descobertas em um relatório de 55 páginas e viajaram pessoalmente de Palo Alto até a sede da Apple, em Cupertino, na terça-feira (12), para apresentar o documento. A divulgação dos detalhes técnicos do ataque está condicionada à correção das vulnerabilidades pela Apple; a Calif declarou que os problemas devem ser solucionados rapidamente.

Imagem: Divulgação

Contexto sobre IA e segurança

Especialistas alertam que modelos recentes de IA, como os desenvolvidos pela Anthropic e OpenAI, têm demonstrado capacidade ampliada para identificar falhas de software. Em outro caso citado, uma IA da Anthropic encontrou mais de 100 vulnerabilidades graves no navegador Firefox ao longo de duas semanas, volume próximo ao que costuma ser encontrado pela comunidade global de segurança em dois meses.

Esse avanço alimenta preocupações sobre um possível cenário de aumento acelerado na descoberta de vulnerabilidades — apelidado de “Bugmageddon” — e pressiona equipes técnicas responsáveis por correções. O fenômeno também tem levado o governo dos Estados Unidos a reavaliar sua postura em relação ao desenvolvimento de IA, incluindo a possibilidade de emitir uma ordem executiva para supervisão governamental de modelos mais avançados.

Com informações de Olhardigital