Um artigo publicado pelo Fórum Econômico Mundial em 2016, assinado pela parlamentar dinamarquesa Ida Auken e intitulado “Bem-vindo a 2030. Eu sou dono de nada, não tenho privacidade e a vida nunca foi melhor”, imaginava um futuro baseado na economia circular, em que alugar e acessar bens seria tão simples e barato que a posse perderia sentido. Se a proposta inicial era uma especulação sobre comodidade, a realidade dos últimos anos aponta para um movimento em direção à perda de propriedade e privacidade, porém alimentado por fatores econômicos e tecnológicos que não têm o tom otimista daquele texto.

O ciclo da “bostificação”: do encanto da Netflix à fragmentação do mercado

O mercado de entretenimento ilustra como a dinâmica mudou. Em 2016 a Netflix oferecia um catálogo amplo por uma assinatura de baixo custo, reduzindo a necessidade de coleções físicas. Mas o modelo sustentava-se em subsídios de capital de risco e licenças baratas, beneficiados por políticas de juros baixos e pela dificuldade inicial dos estúdios em precificar a distribuição digital.

Com o ingresso de concorrentes e com produtoras levando seus próprios conteúdos a serviços próprios, o acesso ficou pulverizado. Paralelamente, a Netflix precisou alocar cada vez mais recursos para conteúdo original, enquanto o crescimento de usuários desacelerava. Para manter retorno aos acionistas, houve aumento de preços, planos com anúncios e maior uso de fórmulas repetitivas e automação na produção, um processo descrito internacionalmente como “enshittification” (ou “bostificação”).

Ilusão da licença digital

A transição do físico para o digital também traz restrições práticas. A Sony anunciou o fim da fabricação de mídias físicas para jogos a partir de 2028, passando tudo a depender da loja digital do PlayStation. Isso elimina facilidade de revenda ou empréstimo e cria risco permanente caso títulos sejam removidos da loja sem cópias locais disponíveis.

Casos de contas invadidas reforçam o problema: um brasileiro conhecido pela gamertag Ordo_Liberal teve conta Xbox comprometida mesmo com autenticação em dois fatores e encontrou resistência da Microsoft para recuperação, sendo obrigado a disputar judicialmente a retomada da conta e da biblioteca de jogos. Situações semelhantes foram observadas em serviços como Uber, Lyft, buscador da Google, recomendações da Amazon e até planos de assinatura para smartglasses da Meta, cada um com contextos diferentes, mas todos refletindo a expansão do modelo baseado em serviços e licenças em vez de propriedade.

Crise das memórias: IA e competição por semicondutores

A chegada massiva de IA generativa e automação intensificou a pressão sobre a cadeia de componentes. Data centers e sistemas de IA demandam grande volume de memória de alta velocidade; mais de 70% da produção atual de memória de alta velocidade é consumida pelo mercado de inteligência artificial, segundo o levantamento apresentado no texto. Três fornecedores — Micron, Samsung e SK Hynix — dominam praticamente toda a oferta de memória DRAM e a totalidade da produção de memórias HBM.

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Analistas estimam que a receita operacional da Micron em 2026 deve ficar entre US$ 90 bilhões e US$ 100 bilhões, valor descrito como maior do que o lucro acumulado da empresa nos 35 anos anteriores. Esse cenário levou a pressão de oferta sobre fabricantes de eletrônicos de consumo, forçando aumentos de preço em produtos de empresas como Apple e Samsung e adiamentos ou reajustes em lançamentos de outros fabricantes. Exemplos citados incluem consoles e dispositivos cujo custo subiu em vez de cair ao longo do tempo, como uma nova Steam Machine anunciada por a partir de US$ 1.050.

Quando a crise deve terminar?

A escolha forçada: modelos de consumo e resistência

Combinados, concentração de renda acelerada pela automação e aumento de preços devido à crise de memória sugerem um cenário em que grande parte da população perderá poder aquisitivo para possuir bens. O texto descreve três opções para os não-milionários: aceitar o modelo de tudo como serviço via assinatura; reduzir participação na economia formal e ficar mais marginalizado; ou buscar formas de resistência individual enquanto se pressiona por regulação, opção apontada como difícil e possivelmente tardia.





Entre medidas práticas citadas estão o aprendizado de sistemas abertos como distribuições de Linux, técnicas como jailbreak para estender suporte de hardware, montagem de servidores domésticos (NAS) para armazenar mídias sem depender de nuvens pagas e reaproveitamento de tablets e laptops antigos. Esses conhecimentos são indicados como formas de manter algum controle sobre a própria vida digital, embora não modifiquem o quadro macroeconômico que levou à situação atual.

Com informações de Tecmundo