Canhotos representam cerca de 10% da população, mas surgem em proporção muito maior entre atletas de elite em modalidades de confronto direto, como boxe, esgrima e beisebol. Pesquisas recentes e modelos teóricos apontam que essa predominância não é aleatória: envolve fatores evolutivos, diferenças cerebrais, vantagens táticas em duelos e até traços psicológicos que favorecem a competição.

O que dizem os estudos

Um estudo publicado em fevereiro de 2026 na revista Scientific Reports, com questionários aplicados a mais de 1.100 participantes, reforçou que canhotos apresentam maior orientação competitiva e menor tendência a evitar disputas por ansiedade. Pesquisas anteriores e um modelo matemático desenvolvido pelo professor Daniel Abrams, da Northwestern University, e publicado no Journal of the Royal Society Interface, explicam por que a canhotice persiste na população: há um equilíbrio evolutivo entre comportamentos cooperativos, que favorecem a padronização destra, e situações competitivas, nas quais a raridade do canhoto se torna estratégica.

Como a vantagem se manifesta nos esportes

Os mecanismos apontados pelos pesquisadores incluem o chamado efeito surpresa estrutural — a maioria dos atletas treina predominantemente contra destros, o que torna os padrões de movimento e ângulos do canhoto menos familiares — e tempos de reação distintos. Um estudo publicado na revista Laterality encontrou que canhotos apresentam respostas mais rápidas contra adversários destros, possivelmente devido à adaptação precoce a padrões espelhados.

Pesquisadores da Universidade de Trento ressaltam também diferenças na organização cerebral: o hemisfério direito, ligado ao controle do lado esquerdo do corpo, teria papel no processamento espacial e na tomada de decisões rápidas, o que pode beneficiar canhotos em esportes como esgrima e tênis de mesa. Em futebol, estudos indicam que canhotos tendem a desenvolver maior controle da perna considerada não dominante, consequência da necessidade de adaptação desde a infância.

Onde a presença é mais visível

Dados mostram que a presença de canhotos é mais forte em disputas diretas. Um estudo de 2019 com mais de 13.800 boxeadores e lutadores de MMA verificou que canhotos, entre homens e mulheres, tiveram percentual de vitórias superior ao esperado a partir da proporção populacional. O modelo de Abrams também previu com precisão maiores participações de canhotos nas elites do beisebol, boxe, esgrima e tênis de mesa, incluindo mais de 50% entre os melhores arremessadores do beisebol americano. Na esgrima, a proporção de canhotos cresce entre os melhores colocados, sendo maior entre os 100 melhores do que entre os 200 melhores.

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Por outro lado, esportes sem confronto direto, como o golfe, apresentam porcentagem de canhotos na elite semelhante à população geral: cerca de 4% entre os profissionais da PGA. Esse contraste reforça a hipótese de que a vantagem canhota depende da interação com um adversário destro e não de superioridade motora universal.

Em síntese, a permanência da canhotice em torno dos 10% ao longo de milênios pode ser explicada pelo balanço entre desvantagens em contextos cooperativos e vantagens em duelos, agora complementado por evidências de forte componente psicológico que incentiva a competição entre canhotos.

Com informações de Olhardigital