Um estudo publicado na revista Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS) relatou um comportamento inesperado em populações clonadas do protista unicelular Euplotes gigatrox. Em condições de laboratório, uma pequena fração das células passa por uma transformação que as torna muito maiores, altera sua morfologia e modo de locomoção e as leva a capturar e engolir indivíduos geneticamente idênticos.

Quem e o que

Pesquisadores observaram que, ao se transformar, essas células deixam de atuar como filtradoras de bactérias — função típica do Euplotes gigatrox — e adotam comportamento predatório contra congêneres. Em sua forma habitual, o protista é alongado e usa cílios para gerar correntes de água que direcionam bactérias para alimentação. Na forma alterada, o organismo cresce, amplia estruturas de alimentação e demonstra capacidade de engolir outros indivíduos da mesma cultura.

Como e quanto

Os autores registraram que os “supergigantes” podem consumir cerca de uma célula a cada dez minutos, atravessando a presa antes de incorporá-la. A transformação envolve mudanças internas substanciais: mais de 42% dos genes analisados apresentam variação na expressão entre os dois estágios, o que indica um controle genético extenso do processo.

Limitações e reversibilidade

Embora os supergigantes tenham vantagem ao capturar presas maiores, a forma gigante impõe custos. Elas se deslocam mais rápido, mas apenas rastejam sobre superfícies em trajetórias circulares, enquanto as células normais nadam longas distâncias. Segundo Ben Larson, coautor do estudo e pesquisador do Rensselaer Polytechnic Institute, manter um corpo maior demanda maior gasto metabólico, ainda que possa favorecer reprodução.

A transformação não é permanente: supergigantes podem se dividir simetricamente em duas células gigantes ou retornar à forma normal por divisões assimétricas. Uma única célula supergigante pode originar até nove células normais em apenas 24 horas. As células que voltam ao estado normal mostram menor propensão a se transformar novamente do que as geradas diretamente da forma convencional, o que, segundo os autores, pode refletir um período de “resfriamento” antes de nova transformação.

Protista unicelular se transforma em supergigante canibal e devora indivíduos clonados

Imagem: Divulgação

Possíveis gatilhos e contexto evolutivo

Os pesquisadores ainda não identificaram o gatilho da mudança e descartaram causas como falta de alimento ou superpopulação no experimento, indicando que outros fatores devem ser investigados. Patrick Keeling, biólogo celular da Universidade da Colúmbia Britânica, comentou que a diferença entre os estágios é notável ao microscópio, principalmente pela aptidão predatória dos supergigantes.





Embora as observações tenham ocorrido em ambiente controlado, os autores ressaltam que transições semelhantes evoluíram independentemente em outras linhagens de ciliados, sugerindo que esse tipo de adaptação pode surgir com certa regularidade ao longo do ciclo de vida desses organismos.

Com informações de Olhardigital