Um relatório do Centro de Estudos Estratégicos de Haia (HCSS), divulgado em 15 de julho de 2026, conclui que a China usa espionagem, coerção econômica e operações digitais para ampliar sua influência em setores estratégicos da Holanda, aproveitando a governança aberta do país para acessar empresas e infraestruturas sensíveis.

O estudo identifica os segmentos de semicondutores, marítimo e aeroespacial como os mais visados por Pequim. Entre esses, o setor de semicondutores é apontado como o mais vulnerável, em razão da presença da ASML, única fabricante mundial de máquinas de litografia ultravioleta extrema (EUV), imprescindíveis para a produção dos chips mais avançados.

Segundo Hans Horan, um dos autores do relatório, a China busca acesso a conhecimentos técnicos e a empresas holandesas por meio de recrutamento de profissionais, coerção junto à diáspora e infiltração no ambiente acadêmico, com o objetivo de obter propriedade intelectual. O documento cita exemplos envolvendo a ASML para ilustrar essa estratégia.

O texto também destaca medidas adotadas por Pequim em 2025, como restrições às exportações de terras raras, que servem como instrumento de pressão econômica. A ASML chegou a registrar preocupação de que tais limitações pudessem provocar atrasos nas entregas, dado que seus equipamentos dependem desses materiais.

No âmbito marítimo, o HCSS chama atenção para a participação de estatais chinesas — Cosco Shipping Ports e China Merchants Port Holdings — no Porto de Roterdã. O relatório alerta para riscos de espionagem cibernética, acesso indevido a dados e possíveis interrupções capazes de afetar cadeias de suprimentos, o fornecimento de energia e a logística da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan).

Imagem: Bloomberg

Os autores recomendam maior coordenação entre serviços de inteligência, reforço da triagem de segurança e aproveitamento estratégico das vantagens tecnológicas da Holanda. Entre as medidas propostas estão o fortalecimento da verificação de antecedentes em instalações sensíveis e a substituição de equipamentos chineses em infraestruturas críticas.

O relatório observa, porém, que a resposta do governo holandês é limitada por barreiras legais e pela relutância da União Europeia em utilizar seu instrumento anticoerção, criado para reagir a pressões econômicas de países terceiros. Os pesquisadores alertam ainda que, em um eventual conflito envolvendo Taiwan, a influência chinesa sobre setores estratégicos poderia reduzir a capacidade de resposta e a autonomia da Holanda.

Com informações de Valor.globo