Tempestades solares — explosões de partículas e campos magnéticos originadas no Sol — têm potencial para afetar infraestrutura crítica na Terra, incluindo redes de energia, satélites, comunicações por rádio, sistemas de navegação por GPS e até trechos da internet internacional, dependendo da intensidade do evento.

Como se formam essas tempestades

O fenômeno nasce de um processo chamado reconexão magnética, em que o campo magnético solar se torce e se rompe, liberando grande quantidade de energia e plasma. Especialistas classificam os eventos em três categorias principais: erupções solares (solar flares), tempestades de radiação e ejeções de massa coronal (CMEs), cada uma com efeitos distintos sobre a atmosfera e o campo magnético terrestre.

A NOAA adota uma escala de um a cinco para avaliar a gravidade dessas ocorrências. A maior parte das tempestades observadas fica nos níveis mais baixos; episódios extremos são pouco frequentes ao longo do ciclo solar de 11 anos.

Vulnerabilidade das redes elétricas

Correntes induzidas por tempestades geomagnéticas podem sobrecarregar transformadores, relés e sensores das redes de transmissão, provocando aquecimento e falhas. Um caso emblemático ocorreu em 1989, quando uma tempestade geomagnética deixou cerca de seis milhões de pessoas na província de Quebec, no Canadá, sem energia por nove horas. Devido ao custo e à complexidade dos equipamentos, danos generalizados poderiam prolongar os prejuízos.

A intensidade dos efeitos varia conforme a proximidade dos polos magnéticos e a resistência elétrica do solo nas diferentes regiões.

Além disso, gestores de grandes centros de dados — setores que demandam alta disponibilidade de energia, como empresas de inteligência artificial — foram apontados como grupos preocupados com interrupções prolongadas nas redes elétricas, segundo artigo publicado no Space News com declaração de Scot McIntosh, ex-diretor adjunto do National Center for Atmospheric Research.

Impacto sobre satélites

Satélites podem sofrer tanto danos físicos em seus componentes eletrônicos quanto falhas operacionais. Russell DeHart, engenheiro-chefe do Goddard Space Flight Center, da NASA, explica que partículas energéticas podem provocar single event upset, alterações temporárias em bits de memória dos computadores embarcados, exigindo interrupção de operações não essenciais até a correção.

As CMEs também aquecem e expandem a atmosfera, aumentando o arrasto sobre satélites em órbita baixa, o que pode reduzir altitude e acelerar o consumo de combustível para manobras evasivas. Em 2022, uma tempestade solar retirou 38 satélites de internet da SpaceX de órbita. Em outubro de 2003, uma sequência de eventos afetou aproximadamente metade dos satélites em operação no mundo e prejudicou voos, transmissões de rádio e TV, sistemas de GPS e missões científicas.

Rádio, GPS e a internet

Alterações na ionosfera provocadas por tempestades solares atrapalham a propagação de ondas de rádio, comprometendo comunicações de longo alcance usadas por embarcações, aeronaves, equipes de resgate e forças militares. Sistemas de navegação por GPS também ficam vulneráveis, já que dependem de posicionamento preciso dos satélites; em 2024, uma tempestade solar afetou tratores equipados com GPS, com prejuízos estimados em US$ 500 milhões.

Imagem: Divulgação

Serviços de telefonia celular tendem a ser menos afetados diretamente, porque usam frequências menos sensíveis à ionização, mas podem sofrer impactos indiretos caso falhas elétricas comprometam a infraestrutura que os sustenta.

Risco aos cabos submarinos

Um estudo de 2021, da pesquisadora Sangeeth Abdu Jyothi (UC Irvine), indica que uma CME de grande intensidade poderia prejudicar repetidores eletrônicos instalados em cabos submarinos — responsáveis por amplificar sinais em longas distâncias — embora as fibras ópticas em si não sejam diretamente afetadas por correntes geomagnéticas. Segundo a NOAA, mais de 95% dos dados internacionais transitam por esses cabos, e rotas de longa distância, como entre Estados Unidos e Europa, seriam especialmente sensíveis.

Eventos extremos e previsibilidade

A tempestade geomagnética mais intensa documentada ocorreu em 1859 e é conhecida como Evento Carrington, quando falhas nos sistemas de telégrafo chegaram a provocar incêndios. Pesquisas também apontam para eventos ainda maiores no passado, os chamados eventos Miyake; um registrado em 774 d.C. pode ter sido cerca de 12 vezes mais intenso que o Evento Carrington.

A National Academy of Sciences estima que um desastre geomagnético de grande escala poderia causar prejuízos superiores a US$ 2 trilhões. Um relatório da NOAA publicado em 2025 concluiu que os sistemas de previsão da atividade solar ainda requerem avanços para reduzir riscos e aumentar a resiliência das infraestruturas afetadas.

Os impactos variam conforme magnitude do evento, localização geográfica e preparo dos sistemas; por isso, pesquisadores e gestores de infraestrutura seguem monitorando e debatendo medidas de mitigação.

Com informações de Olhardigital