A GenLayer Foundation, organização sediada nas Ilhas Cayman, opera uma plataforma baseada em blockchain chamada GenLayer cuja aplicação principal, a Internet Court, já atua em versão beta para resolver conflitos entre agentes de inteligência artificial sem intervenção humana.

O sistema, apoiado por 26 empresas do setor de cripto e IA — entre elas a corretora OKX, a carteira MetaMask e a BNB Chain, da Binance — tem como objetivo dar uma alternativa rápida e de baixo custo para disputas de menor valor que surgem quando bots compram, negociam ou contratam serviços em nome de usuários e empresas.

Exemplos de uso cotidiano apontam para clientes da Robinhood que delegam operações de mercado a agentes de IA, o Joule da SAP para gestão de compras corporativas e assistentes de compras como o Buy for Me, da Amazon. Problemas simples — como entrega na cor errada, atraso ou recebimento de produto danificado — já expõem a necessidade de mecanismos de resolução ágeis.

A Internet Court funciona como uma plataforma contratual e de arbitragem: agentes definem termos, depositam o pagamento em escrow e, caso haja contestação, a disputa é submetida a um júri formado por validadores da blockchain. Cada julgamento inicial envolve cinco validadores escolhidos aleatoriamente, cada um rodando um modelo de IA distinto (citados exemplos: Claude, GPT e Gemini). Um deles propõe a decisão; os demais votam de forma sigilosa e depois revelam concordância ou desacordo.

Se houver consenso, abre-se uma janela de 30 minutos para recurso mediante depósito de garantia (bond). Caso a decisão seja contestada, o júri aumenta para 11 validadores e pode crescer até que não haja mais contestações, seguindo um desenho inspirado no teorema do júri de Condorcet.

Os criadores afirmam que a solução é especialmente útil para litígios em que contratar advogado não é economicamente viável — citando o exemplo de disputas em torno de US$ 10 mil (R$ 51 mil) — e que pode resolver casos por valores muito baixos. A GenLayer diz processar cerca de 350 mil transações por dia na rede, o que equivale a entre 20 mil e 25 mil decisões diárias, e projeta lançamento público ainda este ano, com um token para atrair mais validadores.

Além de disputas comerciais, a Internet Court já é usada em situações de verificação de autenticidade de conteúdo pela plataforma Collective Memory, que recorre ao sistema para avaliar se imagens ou vídeos são falsos, analisando metadados, publicações relacionadas e histórico do usuário.

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Relatórios do setor indicam potencial volumoso para o chamado comércio entre agentes: a Adobe Analytics registra aumento de mais de 14 vezes no tráfego de sites de varejo vindo de IA desde outubro de 2024, e a McKinsey estima que agentes de IA podem intermediar entre US$ 3 trilhões (R$ 15,3 trilhões) e US$ 5 trilhões (R$ 25,5 trilhões) em transações de consumo até 2030.

Especialistas ouvidos destacam, porém, riscos ligados a alucinações dos modelos e à possibilidade de manipulação por meio de prompts ou dados de treinamento contaminados. A preocupação também se reflete em iniciativas paralelas: a American Arbitration Association–International Centre for Dispute Resolution lançou, em parceria com a Integra Ledger, um padrão chamado Legal Context Protocol, com contribuição de empresas como Google, IBM, Circle e Ava Labs.

No campo jurídico tradicional, casos envolvendo agentes de IA já chegam à Justiça. Em novembro de 2025 a Amazon processou a Perplexity alegando que o navegador Comet realizava compras sem autorização; em março um juiz federal da Califórnia proibiu temporariamente o Comet de comprar na Amazon, decisão que segue em apelação.

Enquanto o ecossistema de agentes, protocolos padronizados e marketplaces para contratação entre bots — lançados recentemente por parceiros como OKX e a blockchain NEAR — se desenvolve, a Internet Court representa uma tentativa de criar mecanismos automáticos para resolver conflitos previstos na nova economia de agentes de IA.

Com informações de Forbes