O término da proteção da patente da semaglutida desencadeou uma corrida industrial por versões genéricas e biossimilares das chamadas “canetas emagrecedoras”, potencialmente reduzindo preços e ampliando o acesso a tratamentos à base de GLP-1. O mercado brasileiro, estimado em R$ 15 bilhões, passou a atrair investimentos e concorrência de fabricantes nacionais e internacionais.

Transmissão: Drauzio Varella em seu canal (YouTube)

O que mudou e por que importa

A semaglutida, princípio ativo presente em medicamentos como Ozempic e Wegovy, foi redesenhada para resistir à degradação no organismo, elevando seu tempo de ação. Enquanto o GLP‑1 natural dura cerca de dois minutos, as formas sintéticas conseguem manter atividade por semanas — a semaglutida, por exemplo, permite doses semanais.

Com a proteção da patente vencida, laboratórios têm apresentado pedidos de registro junto à agência reguladora. A produção nacional e a chegada de comprimidos e biossimilares prometem diminuir custos de fabricação e logística, sobretudo se os fármacos deixarem de depender de refrigeração e injeção.

Tecnologia e gerações de medicamentos

As chamadas “canetas emagrecedoras” representam avanços em várias gerações farmacológicas: análogos do GLP‑1 de aplicação diária, opções semanais como a semaglutida e moléculas de ação dupla como a tirzepatida, que atuam também sobre o GIP. A próxima etapa inclui triplos agonistas e pequenas moléculas orais, que podem combinar mais receptores e facilitar o uso.

Um exemplo citado em estudos é a retatrutida, um triplo agonista que mostrou, em ensaios clínicos, redução média de 24,2% do peso corporal ao longo de 48 semanas, resultados comparáveis aos obtidos com cirurgia bariátrica em alguns casos.

Pequenas moléculas e logística

Além da potência, há foco na praticidade. Compostos classificados como pequenas moléculas, como o orforglipron, apresentam vantagens operacionais: estabilidade térmica, absorção oral mais simples e custos de síntese inferiores aos de proteínas biológicas. Essas características podem eliminar a necessidade de refrigeração e simplificar a distribuição em larga escala.

Concorrência, regulação e mercado paralelo

Com a queda da exclusividade, empresas nacionais já investem em capacidade produtiva. Um exemplo é a EMS, que destinou R$ 1,2 bilhão à sua planta de biotecnologia para fabricar análogos de GLP‑1. Há também múltiplos pedidos de registro em análise pelas autoridades regulatórias, e expectativa de aprovações que levariam os produtos ao mercado em sequência.

Ao mesmo tempo, a complexidade dos medicamentos biológicos impõe requisitos técnicos e regulatórios elevados: biossimilares exigem processos de produção com células vivas e supervisão rigorosa. A Anvisa tem analisado e, em alguns casos, barrado registros de produtos vindos do exterior, como Plaobes, Lirahyp e outros, e criou grupos de trabalho para monitorar esse novo segmento.

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O potencial de redução de preços animou o Ministério da Saúde a prever quedas decorrentes da concorrência; estudos e históricos de mercado apontam que genéricos costumam reduzir valores em cerca de 30%, informação considerada na avaliação sobre possível incorporação desses fármacos ao sistema público. A estimativa de custo para uma oferta nacional em larga escala chega a R$ 8 bilhões por ano, o que exige análise orçamentária detalhada.

Riscos, efeitos colaterais e segurança

Os medicamentos que mimetizam hormônios que retardam o esvaziamento gástrico costumam provocar efeitos gastrointestinais — náuseas, vômitos, diarreia e constipação — em parcela dos usuários, em geral leves a moderados e reduzidos com ajuste de dose e acompanhamento médico. O uso sem supervisão também aumenta o risco de perda de massa magra (sarcopenia) e de complicações pancreáticas.





Outro problema é o mercado ilegal: foram relatadas fraudes em que canetas originais têm o conteúdo substituído por substâncias perigosas, resultando em casos graves, como hipoglicemia. Diante disso, a Anvisa endureceu regras sobre manipulação e importação e orienta consumidores a desconfiar de selos adulterados, erros nas embalagens e preços muito abaixo do mercado.

A democratização do acesso depende tanto da competitividade industrial quanto do fortalecimento da regulação e do acompanhamento clínico. Especialistas consultados pelas fontes do setor destacam que, embora as novas drogas ampliem opções terapêuticas, o uso correto requer prescrição e monitoramento médico contínuo.

O cenário configura uma transformação no tratamento da obesidade, mas impõe desafios na oferta segura e na sustentabilidade financeira do sistema de saúde.

Com informações de Olhardigital