WASHINGTON — Em um intervalo de 36 horas marcado por trocas rápidas de mensagens, ameaças públicas e negociações diplomáticas internacionais, a Casa Branca buscou uma saída para um conflito que ameaçava escalar. O presidente Donald Trump chegou a ameaçar “varrer toda uma civilização” caso o Irã não reabrisse o Estreito de Ormuz até as 20h, enquanto mediadores tentavam costurar um acordo de cessar-fogo.

Transmissão: BandHORÁRIO: 18h32 (Brasília UTC-3)

Segundo relatos de assessores e autoridades consultadas, Trump passou horas na Resolute Desk, descrevendo publicamente e em reuniões internas alvos que considerava atacar no Irã, incluindo pontes e usinas. Imagens veiculadas na TV mostravam iranianos reunidos ao redor dessas estruturas, e o presidente disse a auxiliares que a responsabilidade por danos a civis recairia sobre o governo iraniano.

Uma ameaça que gerou pânico

Nos dias que precederam a crise pública, negociações discretas avançavam e, segundo múltiplas autoridades, o líder supremo do Irã havia sinalizado alguma disposição em prosseguir com conversas. O Paquistão atuava como mediador, tentando viabilizar um cessar-fogo que abrisse espaço para um diálogo mais amplo.

Na manhã de terça-feira, no entanto, a impaciência americana culminou na ameaça pública de Trump. Autoridades iranianas afirmam que receberam a mesma mensagem por canais do Paquistão e decidiram, em reação, suspender as comunicações com Washington. Lideranças iranianas e comandantes da Guarda Revolucionária passaram a adotar tom desafiador nas redes sociais, avaliando que Teerã detinha vantagem estratégica, sobretudo em relação ao Estreito de Ormuz.

O temor de ataques a infraestrutura levou civis a estocar mantimentos em Teerã e provocou fuga em massa de dezenas de milhares de pessoas rumo ao litoral do Mar Cáspio, com congestionamentos e restrições de tráfego nas estradas de saída da capital. Uma moradora identificada como Nazy relatou compras de gelo, alimentos secos e suprimentos para idosos da família.

Negociações frenéticas e papel da China

Com o risco de colapso nas tratativas, governos do Oriente Médio e a China intensificaram contatos para evitar uma escalada. Autoridades iranianas e paquistanesas indicaram que, diante das ligações de Turquia, Egito e Catar, foi a China que conseguiu persuadir Teerã a aceitar um cessar-fogo temporário e a abrir o Estreito de Ormuz à navegação por duas semanas, considerando os impactos econômicos.

Pouco antes das 17h, o chefe do Exército do Paquistão, marechal de campo Syed Asim Munir, telefonou a Trump informando que o Irã havia concordado com a proposta paquistanesa. Trump disse que os Estados Unidos também aceitariam se Teerã confirmasse. Em seguida, o presidente contatou o primeiro‑ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, para comunicar que os EUA entrariam em um cessar‑fogo de duas semanas.

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Um acordo frágil que se desgasta

Às 18h32, Trump anunciou em sua rede, a Truth Social, a suspensão por duas semanas da campanha de bombardeios, com o objetivo de avançar em negociações de paz. Mesmo assim, dúvidas sobre a durabilidade do acordo surgiram imediatamente. Às 19h50, o primeiro‑ministro paquistanês Shehbaz Sharif afirmou que o cessar‑fogo se aplicava “a todos os lugares, inclusive ao Líbano”.

No dia seguinte, o presidente descreveu, em entrevista à PBS, o confronto entre Israel e o Hezbollah como um episódio separado, enquanto Israel intensificava ataques ao Líbano. A Casa Branca não divulgou publicamente os termos que dizia negociar, e a proposta iraniana de 10 pontos, tornada pública por Teerã, foi rejeitada pelos negociadores americanos, segundo porta-vozes da administração.

O vice‑presidente JD Vance, o enviado especial Steve Witkoff e Jared Kushner foram anunciados para viajar ao Paquistão para dar continuidade às negociações — o encontro de mais alto nível entre autoridades americanas e iranianas desde 1979. Ainda assim, altos funcionários iranianos passaram a acusar os EUA de violarem o acordo, e Mohammad Bagher Ghalibaf, presidente do Parlamento iraniano, classificou a trégua e as negociações como “irracionais” diante de ataques em curso ao Líbano, intrusões aéreas e divergências sobre o enriquecimento nuclear.

O destino do urânio enriquecido do Irã, a situação do Estreito de Ormuz e a estabilidade do cessar‑fogo permaneceram incertos ao final do período descrito.

Com informações de Infomoney