No fim de 2024, executiva da Athenahealth testou o conhecimento de chatbots como o ChatGPT sobre sua empresa e constatou falhas: os sistemas não reconheciam ofertas importantes, deixavam de mencionar a empresa em respostas relevantes e se apoiavam em fontes desatualizadas. A experiência levou a companhia a investir em conteúdo voltado especificamente para “educar” modelos de inteligência artificial.

O episódio ilustra uma mudança que vem mobilizando empresas nos Estados Unidos: além de convencer consumidores, marcas precisam agora influenciar o que modelos de IA e chatbots dizem quando respondem a consultas. Profissionais de marketing e startups especializadas afirmam que esses sistemas passaram a funcionar como um novo tipo de influenciador, capaz de direcionar decisões de compra e percepção pública.

Empresas do setor de IA também ajustam seus modelos de negócio para esse cenário. A OpenAI informou que 800 milhões de pessoas usam o ChatGPT semanalmente, enquanto o Google diz que seu chatbot Gemini tem mais de 750 milhões de usuários mensais. Ao mesmo tempo, a OpenAI anunciou planos para veicular anúncios junto às respostas do ChatGPT.

O marketing para IA tem sido comparado à otimização para mecanismos de busca (SEO). Termos como AEO (answer engine optimization) e GEO (generative engine optimization) surgiram para descrever práticas que envolvem testar consultas, analisar as respostas geradas e adaptar conteúdos para melhorar a visibilidade dentro de mecanismos de resposta generativa.

Startups especializadas em monitorar e influenciar resultados de chatbots têm atraído clientes e recursos. A Evertune, criada em abril de 2024, captou US$ 20 milhões e afirma ter mais de 200 clientes, entre eles empresas dos setores de saúde, farmacêutico, automotivo, de luxo e eletrônicos. Segundo a empresa, seus clientes fazem, em média, 1 milhão de perguntas por mês a chatbots para identificar erros, desatualizações ou ausência de contexto.

Para garantir que os modelos incorporem informações favoráveis ou precisas, marcas vêm produzindo grande volume de material técnico e detalhado. A Athenahealth publicou cerca de 250 mil palavras de conteúdo altamente direcionado nos seis meses seguintes ao início do trabalho, o que, segundo a executiva responsável pelo marketing, aumentou a probabilidade de a empresa ser citada em consultas relevantes.

Agências que atuam com algoritmos de IA recomendam foco em clareza, profundidade e riqueza de detalhes nos conteúdos, mais do que apelos narrativos ou estilísticos. Ao mesmo tempo, há desafios: paywalls impedem que conteúdos de qualidade sejam lidos pelos modelos, respostas antigas podem ser reapresentadas como atualizadas e, em alguns casos, os chatbots inventam informações.

Chatbots de IA viram alvo de marketing; marcas precisam conquistar esses novos “influenciadores”

Imagem: Divulgação

Uma postagem antiga e negativa em fóruns como Reddit ou Quora pode afetar desproporcionalmente o que os sistemas retornam. Dados levantados por uma agência especializada indicam que o Reddit foi o site mais citado em 27 milhões de respostas de IA a prompts de “busca por solução” nos últimos 30 dias, à frente de YouTube, Wikipedia e sites de notícias. Isso tem levado marcas a aprender a navegar em comunidades que rejeitam estratégias de venda agressivas; agências como a Growth Marketing Pro, fundada em 2017, passaram a orientar clientes sobre como atuar no Reddit e hoje atendem mais de 50 marcas com esse foco.

Como reação, empresas têm revisado e removido conteúdo antigo em sites e redes sociais, já que os chatbots tendem a recuperar materiais antigos independentemente de estarem desatualizados. A mudança exige vigilância contínua sobre o acervo digital, segundo profissionais ouvidos.

O novo ambiente também gerou questionamentos jurídicos: o The New York Times processou a OpenAI e a Microsoft, alegando violação de direitos autorais de conteúdo jornalístico relacionado a sistemas de IA; as empresas negaram as acusações.

Com informações de Infomoney