Emil Michael, ex-executivo da Uber, assumiu papel central nas negociações entre o Pentágono e a empresa de inteligência artificial Anthropic PBC sobre o uso dos modelos de IA da startup. Como subsecretário de Defesa para Pesquisa e Engenharia, Michael vem dialogando com a Anthropic e com seu CEO, Dario Amodei, enquanto as conversas permanecem sem acordo.

O impasse se intensificou após o Departamento de Defesa notificar formalmente a Anthropic, nesta semana, de que considerou a empresa um risco para a cadeia de suprimentos — uma classificação que, segundo funcionários, costuma ser aplicada apenas a adversários estrangeiros.

As negociações giram em torno das restrições defendidas pela Anthropic, que procura impedir que suas tecnologias sejam usadas para vigilância em massa de cidadãos americanos ou para operações de armas totalmente autônomas. Por sua vez, o Pentágono busca garantir a integração de tecnologias de IA em sistemas militares sensíveis, levando a um confronto entre a administração e a líder do setor.

Ao mesmo tempo em que adota postura firme com a Anthropic, Michael tem tentado estreitar laços com empresas de tecnologia. Desde que assumiu o cargo, em maio, ele se reuniu com centenas de companhias do setor, segundo um funcionário do Departamento de Defesa, com o objetivo de acelerar a adoção de IA pelas forças armadas, captar as melhores soluções disponíveis e ampliar o rol de fornecedores com os quais o governo trabalha.

Fontes ouvidas pela reportagem informaram que Michael também manteve contato com investidores, inclusive alguns ligados à Anthropic, e compartilhou sua visão das negociações do ponto de vista governamental. Uma pessoa próxima às conversas pediu anonimato por se tratar de troca privada.

Publicamente, Michael tem criticado a Anthropic e seu CEO. Em uma postagem no X na semana passada, ele chamou Amodei de “mentiroso” e de ter um “complexo de Deus”. Na Cúpula de Dinamismo Americano promovida pela Andreessen Horowitz, afirmou que os problemas com um fornecedor de modelos — não identificado na ocasião — eram mais graves do que a cobertura da imprensa vinha mostrava, e disse que a empresa havia imposto “dezenas de restrições”, mesmo com seus modelos já incorporados a sistemas importantes das forças armadas.

A presença de Michael no Pentágono remete ao seu passado no Vale do Silício. Há cerca de uma década, ganhou destaque na Uber como negociador agressivo e braço direito do então CEO Travis Kalanick. Em quatro anos na diretoria de negócios, ajudou a levantar mais de US$ 10 bilhões, conduziu a expansão internacional da empresa e participou da venda das operações na China para a Didi Chuxing.

Sua trajetória na Uber também foi marcada por controvérsias. Em 2017, uma investigação conduzida pelo ex-procurador-geral Eric Holder apontou problemas na cultura corporativa e recomendou sua saída, que acabou ocorrendo. Michael esteve envolvido em outros episódios polêmicos, como a visita a um bar de acompanhantes com karaokê em 2017 e uma declaração, em 2014, sugerindo que a Uber poderia pagar por informações sobre jornalistas críticos — ele negou ter assediado um repórter e disse, na época, que se arrependeu.

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Antes de retornar ao serviço público, Michael foi CEO da DPCM Capital, empresa de aquisição por propósito específico. Ele também teve experiências anteriores no governo, como participação no programa White House Fellows durante a administração de Barack Obama e atuação como assistente especial do então secretário de Defesa Robert Gates. Durante seu período na Uber, integrou o Defense Business Board.

Por outro lado, há defensores de sua nomeação. O investidor Joe Lonsdale elogiou sua capacidade de navegar no mundo da tecnologia e disse que é vantajoso ter alguém com esse conhecimento no Pentágono, além de destacar sua energia para o trabalho intenso.

Em termos de doações políticas, os registros da Comissão Eleitoral Federal mostram que Michael doou US$ 1 milhão, em 2024, à MAGA Inc., o super PAC ligado ao presidente Donald Trump, e, anteriormente, fez uma contribuição de US$ 2.700 à campanha de Hillary Clinton em 2016.

Com informações de Infomoney