Corretoras que atendem fundos de hedge e investidores institucionais estão se mobilizando para permitir que seus clientes operem na Kalshi, plataforma de mercados de previsão cofundada pela brasileira Luana Lopes Lara. A iniciativa sinaliza um movimento crescente para integrar esse segmento emergente aos agentes de Wall Street.

A Kalshi oferece mercados binários — contratos que pagam com base no resultado “sim” ou “não” — sobre eventos como eleições, inflação, indicadores econômicos, clima e resultados esportivos. A procura por esse tipo de produto tem aumentado entre investidores de varejo, atraídos pela simplicidade das apostas, e agora também desperta o interesse de instituições.

A corretora Clear Street, que presta serviços a fundos de hedge e traders sofisticados, informou que pretende liquidar sua primeira operação na Kalshi ainda neste mês e ampliar a oferta ao longo do ano, disse o CEO Ed Tilly em entrevista à margem da conferência anual da Futures Industry Association, em Boca Raton, Flórida.

A londrina Marex Group também planeja abrir acesso à Kalshi nos próximos meses, afirmou Ram Vittal, CEO da operação norte-americana, em evento separado. Thomas Texier, chefe de clearing da Marex, relatou que “nas últimas semanas, vimos fundos de hedge muito grandes nos procurarem e dizerem: ‘Vocês conseguem nos dar acesso a esses mercados?’”.

Além de oferecer acesso para negociação, a mesa de produtos estruturados da Marex avalia usar os mercados de previsão para proteger exposições próprias, segundo Texier. Clear Street e Marex se juntam a outras corretoras interessadas nesse nicho, como Wedbush e Plus500, na construção de infraestrutura mais sofisticada para investidores profissionais.

Apesar do crescimento, grandes bancos que tradicionalmente fornecem liquidez e capital de negociação aos fundos de hedge têm mantido distância devido a preocupações sobre liquidez e riscos legais. Tilly disse que a Clear Street está adotando uma postura cautelosa, citando vulnerabilidade a uso de informação privilegiada e processos de reguladores estaduais que classificam parte desses contratos como forma de jogo ilegal. “Eu gosto de alguns desses contratos? Não gosto”, afirmou ele, acrescentando que a empresa opera em mercados regulados e é neutra quanto ao local de negociação.

Imagem: O aplicativo Kalshi em um smartphone

Segundo Tarek Mansour, CEO da Kalshi, clientes institucionais buscam os mercados de previsão tanto para criar instrumentos de hedge quanto para obter dados alternativos sobre a probabilidade de eventos globais. Em fevereiro, a Tradeweb Markets Inc. firmou acordo com a Kalshi para distribuir esses dados aos usuários de sua plataforma de negociação de títulos. Um porta-voz da Kalshi recusou-se a comentar os produtos que Clear Street e Marex estão lançando.

Da dança ao MIT e à Kalshi

Luana Lopes Lara tem trajetória incomum: filha de uma professora de matemática e de um engenheiro elétrico, cresceu entre Joinville (SC) e Belo Horizonte (MG). Enquanto estudava na Escola do Teatro Bolshoi no Brasil, participou de competições acadêmicas, conquistando ouro na Olimpíada Brasileira de Astronomia e bronze na Olimpíada Catarinense de Matemática. Depois de nove meses dançando profissionalmente na Áustria, optou por seguir carreira acadêmica no Massachusetts Institute of Technology (MIT), onde se formou em Ciência da Computação e Matemática e conheceu Tarek Mansour. Ambos estagiaram durante a graduação em grandes gestoras e bancos de Wall Street — Mansour passou por Goldman Sachs e Citadel; Luana, por Bridgewater Associates, Citadel e Five Rings Capital — e fundaram a Kalshi em 2018.

A expansão das corretoras para incluir a Kalshi ocorre também depois da tentativa frustrada de oferta pública inicial da Clear Street no mês passado, operação que poderia ter levantado até US$ 364 milhões, mas foi retirada em meio à queda das ações de corretoras.

Com informações de Investnews