TRANSMISSÃO: Record

A guerra no Oriente Médio, que já afetou o fornecimento global de fertilizantes nitrogenados como a ureia, agora traz riscos crescentes à cadeia de insumos fosfatados, essenciais para culturas como a soja. Enquanto o bloqueio de embarques pelo Estreito de Hormuz pressionou preços da ureia, especialistas alertam para uma ameaça paralela ligada ao enxofre e ao ácido sulfúrico usados no processamento de fertilizantes fosfatados.

Segundo o The Fertilizer Institute, o Oriente Médio responde por cerca de um quinto do comércio mundial de três produtos-chave de fosfato. Além disso, quase metade da oferta global de enxofre — transformada em ácido sulfúrico, usado no processamento de fosfatos — provém de países da região que estão expostos a interrupções no Estreito de Hormuz.

Andy Hemphill, analista de mercado de ácido sulfúrico na plataforma de preços ICIS, afirmou que os efeitos na cadeia produtiva podem se tornar “exponenciais” caso o conflito se prolongue, à medida que produtores consumirem estoques existentes de enxofre e ácido sulfúrico.

O fosfato é fundamental para a produção de alimentos — sustenta desde a soja até a batata — e o aperto na oferta agrava preocupações sobre inflação e segurança alimentar. Nos Estados Unidos, quase 80% do fósforo aplicado vai a lavouras de soja e milho, insumos que posteriormente viram ração animal e combustível, tornando os produtores americanos vulneráveis a custos de produção elevados.

Antes do conflito, o abastecimento de fosfato e enxofre já estava apertado. Os preços do enxofre atingiram patamares recordes impulsionados em parte pela demanda do setor de mineração, que usa ácido sulfúrico na extração de metais como cobre e níquel. As exportações russas sofreram restrições devido à guerra na Ucrânia e a limitações de exportação, e a China reduziu embarques de fosfato para priorizar o mercado doméstico.

Ao mesmo tempo, políticas comerciais dos Estados Unidos pressionaram a oferta. Tarifas impostas em 2023 sobre fosfato do Marrocos permanecem vigentes, e medidas tarifárias mais amplas adotadas no ano passado pelo presidente Donald Trump limitaram importações, segundo relatos do setor.

Josh Linville, vice-presidente da área de fertilizantes da corretora StoneX Group, afirmou que o fosfato já enfrentava problemas antes da guerra e que o conflito piorou a situação, colocando-o possivelmente em condição mais grave do que a dos nitrogenados.

Houve tentativas de recompor estoques após parte dos fertilizantes ter sido isenta de tarifas no fim do ano passado, disse Veronica Nigh, economista-chefe do The Fertilizer Institute. No entanto, ela destacou que o desafio central é a oferta de enxofre; o conflito em Israel já havia elevado preços do insumo a ponto de paralisar parte da produção de fosfato.

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Contratos de enxofre em Tampa, referência importante nos EUA com liquidação trimestral, atingiram preço recorde no fim de janeiro, segundo dados da Bloomberg Green Markets desde 2012. Já os preços do fosfato diamônico em Nova Orleans estão no maior nível em quase quatro meses.

Faraz Ahmed, diretor da trading Montage Commodities, observou que produtores de fertilizantes ficam pressionados porque compradores concorrentes, especialmente mineradoras, conseguem pagar mais. O impacto nos preços dos fosfatados pode se intensificar em abril, quando a Índia costuma ampliar compras para seu consumo interno, o que poderia empurrar o mercado a um “modo de pânico”.

Nos Estados Unidos, a demanda por estabilidade cresce. Agricultores dependem de nitrogenados, fosfatados e potássicos; apenas o potássio, majoritariamente fornecido pelo Canadá, está relativamente protegido do choque atual. Entidades do setor pressionam o governo americano a suspender tarifas sobre fertilizantes do Marrocos, que detém grandes reservas de rocha fosfática.




As tarifas impostas em 2021, após pedido da Mosaic ao Departamento de Comércio, estão em revisão. A American Farm Bureau Federation solicitou a Trump a suspensão temporária das taxas, e uma coalizão de grandes grupos agrícolas pediu recentemente que Mosaic e JR Simplot retirem seu apoio à manutenção das tarifas. Em 17 de março, as empresas informaram ao Departamento de Comércio que participarão da revisão conduzida pelo órgão.

Enquanto isso, a acessibilidade reduzida já afeta a demanda. David Delaney, CEO da produtora de fosfato Itafos, estimou uma queda de cerca de 20% no uso de fosfato nos EUA nos 12 meses encerrados em junho. Segundo ele, as restrições de oferta podem aprofundar esse recuo — especialmente se agricultores escolherem plantar mais soja em vez de milho para evitar os altos custos dos fertilizantes nitrogenados.

Delaney concluiu que a oferta deve continuar apertada na primavera, verão e outono, e que com um corte de 20% pode haver produto suficiente apenas para atravessar a primavera, terminando a temporada com estoques muito baixos.

Com informações de Investnews