Apenas uma pequena parcela dos papéis listados na B3 conseguiu remunerar o acionista acima do retorno considerado livre de risco nos últimos 15 anos. Levantamento realizado pela gestora Sharp Capital revela que somente 15% das ações existentes em 2010 entregaram ganho real superior ao oferecido pelos títulos do Tesouro atrelados à inflação (NTN-B) acrescidos de 3% ao ano, parâmetro que a casa adota como linha mínima para caracterizar criação de valor ao investidor no Brasil.

“Quase por definição, a fronteira em que se inicia a geração de valor para o acionista situa-se ‘à direita da NTN-B’”, afirma a Sharp no estudo. O resultado, segundo a gestora, reflete um ambiente de custo de capital elevado, no qual superar alternativas consideradas de baixo risco foi exceção e não regra. Na prática, a maioria das companhias listadas não compensou o risco assumido pelos cotistas.

O texto compara o desempenho do mercado a uma prova difícil: “Se 85% dos alunos reprovam, talvez o problema seja a prova”. A frase sintetiza a percepção de que o mercado acionário brasileiro tem se mostrado pouco funcional para a geração de valor ampla e consistente.

Mesmo nesse cenário, a distribuição de retornos foi bastante concentrada. Um grupo restrito de empresas privadas já negociadas em 2010 respondeu por parcela relevante da riqueza criada no período. A Sharp destaca três casos emblemáticos: Mercado Livre, Equatorial e WEG, que combinaram forte apreciação das cotações com aumento expressivo de valor de mercado.

No extremo oposto, a destruição de valor também foi recorrente. Conforme o levantamento, quase 20% dos papéis em circulação em 2010 perderam mais de 90% do valor real ao longo dos 15 anos seguintes, incluindo empresas amplamente conhecidas do público investidor. A gestora frisa que colapsos não podem ser considerados eventos raros e que identificá-los é tão importante quanto participar das poucas grandes vencedoras.

O estudo não contempla empresas que geraram valor fora da janela analisada ou que abriram capital mais recentemente. Para a Sharp, o custo de permanecer de fora das histórias vencedoras teria sido elevado, assim como o de manter posições por tempo demasiadamente longo em negócios incapazes de superar o custo do capital.

Imagem: Painel eletrônico mostra cotações na B3 10/07/2025 REUTERS/Alexandre Meneghini

Desempenho dos fundos da casa

Os números do levantamento dialogam com a trajetória da própria Sharp Capital, comandada por Ivan Guetta e conhecida por carteiras sem viés setorial explícito. Em 2025, o fundo Sharp Equity Value avançou 46%, contra alta de 34% do Ibovespa e de 38% do IVBX2, impulsionado principalmente pelas posições nos setores bancário e elétrico. Já o Sharp Ibovespa Ativo superou o índice de referência em 4,8 pontos percentuais, graças ao peso acima da média em empresas de energia elétrica e à exposição menor a bens de capital, parcialmente compensada pelo desempenho aquém do esperado em saneamento.

A gestora costuma trabalhar com horizonte de investimento de cerca de três anos, mas mantém exceções relevantes, como a participação iniciada no IPO da Equatorial em 2006.

Com informações de Infomoney