Aegea divulgou neste sábado (11) os resultados de 2025 e informou que reapresentou as demonstrações financeiras de 2024 após revisar políticas contábeis e reavaliar estimativas, encerrando uma sequência de adiamentos que havia gerado apreensão entre investidores e credores.

No fato relevante, a empresa afirmou que os ajustes são de natureza estritamente contábil e não impactam a geração de caixa operacional, a liquidez, o cumprimento de obrigações financeiras nem implicam vencimento antecipado de dívidas. As demonstrações de 2025 foram emitidas sem ressalvas pela auditora independente KPMG.

A reapresentação trouxe mudanças relevantes nas contas históricas. No consolidado, o lucro líquido de 2024 caiu de R$ 2,396 bilhões para R$ 1,803 bilhão, redução de R$ 593,3 milhões. O patrimônio líquido consolidado foi reduzido de R$ 11,4 bilhões para R$ 6,39 bilhões, queda de cerca de R$ 5 bilhões. O ativo total consolidado em 31 de dezembro de 2024 passou de R$ 44,33 bilhões para R$ 39,54 bilhões.

A companhia detalhou três frentes principais para a revisão. A primeira foi o reconhecimento de receita de serviços de água: a Aegea adotou critério mais conservador para clientes com saldos vencidos há mais de seis meses ou com cadastro incompleto ou desatualizado, reconhecendo receita apenas após o pagamento. Segundo a empresa, a concessão mais afetada por esse ajuste foi a Águas do Rio.

A segunda frente envolveu a receita do ativo financeiro em parcerias público-privadas (PPPs). A Aegea alterou a mensuração da margem de construção, passando a usar metodologia baseada em fluxos de caixa esperados de receitas e custos atribuíveis à fase de construção, descontados a valor presente. A terceira frente foi a provisão para perdas de crédito esperadas, recalculada com matriz de rolagem baseada no histórico de inadimplência dos últimos 36 meses; a provisão passou a representar 105% do total de contas a receber vencidas no ecossistema.

Houve ainda ajustes no tratamento contábil da capitalização de juros relacionados ao pagamento de outorga, especialmente na Águas do Rio, o que elevou a despesa financeira.

No conceito proforma do ecossistema, que inclui controladas e coligadas relevantes não totalmente consolidadas, a receita líquida de 2025 alcançou R$ 18,288 bilhões, alta de 20,6% em relação a 2024, e o EBITDA proforma chegou a R$ 10,297 bilhões, avanço de 23,5%. Apesar desses números operacionais, o lucro líquido proforma caiu 31%, para R$ 856 milhões. A dívida líquida proforma subiu para R$ 47,044 bilhões, elevando a alavancagem de 4,13 vezes para 4,51 vezes dívida líquida sobre EBITDA.

No recorte societário, a receita líquida cresceu 28,1%, para R$ 12,322 bilhões, e o EBITDA CVM 156 subiu 29,2%, para R$ 7,852 bilhões. Mesmo assim, o lucro líquido societário caiu 29%, para R$ 1,280 bilhão. A dívida líquida aumentou 68,2%, para R$ 30,242 bilhões, e a alavancagem passou de 2,96 vezes para 3,78 vezes EBITDA.

A Aegea destacou crescimento operacional: o ecossistema chegou a 14,1 milhões de economias (+13,8%) e o volume faturado proforma cresceu 8,4%, para 2,02 bilhões de m³. A empresa apontou também o início de cinco novas operações em 2025, a aquisição da Regenera Rio no segmento de resíduos sólidos, a conversão para categoria A na CVM e captações de R$ 22,3 bilhões no ano, incluindo operações de liability management que alongaram o prazo médio da dívida e reduziram o custo médio.

Imagem: Divulgação

A operação Águas do Rio segue como principal foco de atenção. Em 2025, a concessão registrou receita líquida de R$ 5,829 bilhões (alta de 10%), mas EBITDA caiu 15%, para R$ 1,706 bilhão, e houve prejuízo líquido de R$ 584 milhões. A inadimplência UDM subiu para 12%, ante 1% no ano anterior, e a alavancagem saltou para 8,5 vezes EBITDA, de 6,7 vezes em 2024. A companhia atribuiu parte do impacto ao ajuste contábil na provisão para perdas com inadimplência.

A Corsan foi destaque positivo: EBITDA de R$ 3,682 bilhões, alta de 63%, e lucro líquido de R$ 2,441 bilhões, avanço de 76%. Parte dos ganhos foi influenciada por um efeito não recorrente de R$ 591 milhões em crédito de PIS/Cofins. Sem esse efeito, o EBITDA societário teria sido de R$ 7,261 bilhões (em vez de R$ 7,852 bilhões) e o EBITDA proforma ex-efeito seria R$ 9,849 bilhões.

KPMG aponta áreas sensíveis e falhas de controle

A KPMG aprovou as demonstrações de 2025 sem ressalvas, mas incluiu parágrafo de ênfase sobre a reapresentação dos saldos anteriores e listou principais assuntos de auditoria nas áreas mais sensíveis do balanço: alocação do valor justo da outorga e capitalização de juros, reconhecimento de receita de água e esgoto, receita de construção em PPPs, provisão para perdas de crédito esperadas, mensuração de instrumentos financeiros a valor justo ligados à Águas do Rio Investimentos, capitalização de gastos em ativos de concessão e combinação de negócios da Regenera Rio.

O relatório da auditora registrou que foram identificados ajustes registrados pela administração e deficiências no desenho dos controles internos, o que levou a KPMG a ampliar procedimentos substantivos para obter evidência suficiente, especialmente em receitas, provisões, outorga e instrumentos financeiros.

Assim, a divulgação de 2025 mostrou simultaneamente crescimento operacional, reapresentação relevante dos números de 2024 e aumento da alavancagem, com a Águas do Rio permanecendo como um dos principais pontos de atenção no portfólio.

Com informações de Investnews