A Diretoria Colegiada da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) decidiu por unanimidade, nesta sexta-feira, manter a proibição de diversos produtos de limpeza da marca Ypê. Os itens não podem ser fabricados, distribuídos, vendidos ou usados no país.

Os produtos já haviam sido suspensos na semana passada, mas a medida chegou a ser temporariamente suspensa após a empresa apresentar recurso, que tem efeito suspensivo automático. Em reunião realizada ontem, a Anvisa avaliou o recurso e manteve o veto aos itens da linha.

A decisão foi tomada após inspeção na unidade produtiva da empresa em Amparo (São Paulo), quando foram identificadas a bactéria Pseudomonas aeruginosa em mais de 100 lotes e outras irregularidades. Estão incluídos no bloqueio todos os detergentes lava-louças, sabões líquidos para roupas e desinfetantes cujos lotes terminam com o número 1.

Como a bactéria pode aparecer em produtos de limpeza

Especialistas ouvidos pela reportagem explicam que algumas bactérias formam biofilme, uma película que protege a comunidade bacteriana e reduz a ação de agentes antimicrobianos, inclusive desinfetantes. Além disso, nem todos os produtos de limpeza têm função esterilizante: sabões, detergentes e lava-roupas atuam principalmente na remoção de sujeira, gordura e matéria orgânica, e podem apenas reduzir microrganismos por arraste durante a lavagem e enxágue.

O que é a Pseudomonas aeruginosa e quem corre maior risco

A Pseudomonas aeruginosa é um patógeno ambiental com alta relevância para a saúde pública por sua resistência a medicamentos. Dados da Parceria Global de Pesquisa e Desenvolvimento de Antibióticos (GARDP) associam a bactéria a 559 mil mortes por ano. Ela é comum no ambiente, mas pode causar infecções graves em pessoas imunossuprimidas e é frequentemente encontrada em infecções hospitalares; estudos indicam que até 23% das contaminações em UTIs podem ser atribuídas a esse microrganismo.

Transmissão, sobrevivência e sintomas

A transmissão ocorre pelo contato com superfícies contaminadas, como produtos afetados, esponjas, panos, ralos e outros locais úmidos. Em superfícies secas a bactéria pode sobreviver de horas a poucos dias; em ambientes úmidos, como esponjas e ralos, sua sobrevida pode se estender por semanas ou meses devido à formação de biofilme.

Os sintomas variam conforme o local de contato e, em geral, aparecem entre 24 e 72 horas após a exposição. Na pele, podem surgir vermelhidão, coceira, dor ou pus; nos olhos, vermelhidão intensa, dor e secreção amarelada. Infecções mais graves podem provocar febre e mal-estar. Em caso de sinais sugestivos de infecção, a orientação é procurar atendimento médico e informar o contato com produto que sofreu recall.

Imagem: Divulgação

Risco de contaminação cruzada e medidas recomendadas

Há risco de contaminação cruzada especialmente em materiais que retêm umidade, como esponjas, panos molhados, compartimentos de máquinas de lavar e ralos. Roupas bem lavadas, enxaguadas e totalmente secas apresentam risco menor. Especialistas recomendam higienizar ou descartar itens que tiveram contato direto com produtos possivelmente contaminados, sobretudo os que permanecem úmidos. Superfícies lisas e não porosas podem ser limpas com desinfetantes seguindo as instruções do rótulo.

Para roupas, tecidos e talheres, uma nova lavagem com detergente ou lava-roupas considerado seguro, acompanhada de bom enxágue e secagem completa, é suficiente para reduzir o risco e permitir a reutilização.

Não há recomendação para que todas as pessoas que utilizaram os produtos busquem atendimento médico, já que a infecção por P. aeruginosa é incomum em indivíduos saudáveis. A exceção são pessoas imunossuprimidas, que devem receber atenção especial.

Sobre a permanência da bactéria no corpo, não existe um prazo único: a exposição eventual nem sempre leva a doença ou colonização duradoura; a duração varia conforme o local afetado e a resposta imunológica do indivíduo.

Com informações de Infomoney