O grupo empresarial controlado pelos militares cubanos, conhecido como GAESA, concentra boa parte da economia da ilha e passou a ser foco de medidas punitivas dos Estados Unidos. Estimativas citam que o conglomerado administra entre 40% e 70% da atividade econômica de Cuba, operando em setores-chave como turismo, energia, serviços financeiros e comércio varejista.
Criado por Raúl Castro com o objetivo inicial de fortalecer as capacidades de defesa do país, o GAESA se transformou em uma vasta rede de empresas, entre elas a CIMEX, responsável por hotéis de alto padrão, boutiques, centros de mergulho, centenas de postos de gasolina, casas de câmbio, supermercados e a única operadora de internet do país. O grupo também controla companhias de transferência de dinheiro e o Banco Financiero Internacional, um dos maiores bancos comerciais de Cuba, o que, segundo analistas, lhe confere influência sobre as reservas de moeda estrangeira.
Segundo relatos, as finanças do GAESA não são auditáveis pelo governo cubano e os lucros gerados permanecem dentro do conglomerado, acumulando recursos fora do banco central. A controladora-geral do governo admitiu, em 2024, que não tinha acesso às contas do GAESA e, posteriormente, foi demitida.
O aumento da pressão americana incluiu, neste mês, uma ordem executiva assinada pelo presidente Donald Trump visando ampliar sanções contra Cuba e, especificamente, atingir o GAESA. A medida afirma que as receitas do conglomerado “provavelmente superam em mais de três vezes o Orçamento do Estado”. O diretor da CIA, John Ratcliffe, também esteve em Havana neste mês para cobrar mudanças econômicas e de segurança do governo, em um momento em que promotores federais dos EUA buscam indiciar Raúl Castro por tráfico de drogas e pelo abate de aviões humanitários em 1996.
O secretário de Estado Marco Rubio intensificou a retórica contra o GAESA, classificando-o como instrumento de enriquecimento da elite política cubana que pouco reverte em benefícios para a população. Rubio afirmou que a empresa privada dispõe de mais recursos do que o próprio Estado e disse: “Nada desse dinheiro é usado para construir uma única estrada, uma única ponte, fornecer um único grão de arroz a um único cubano que não faça parte do GAESA.” Ele também declarou que as sanções visam uma entidade que “está roubando do povo cubano em benefício de poucos” e prometeu ampliar as ações.
Do lado cubano, o presidente Miguel Díaz-Canel qualificou a ordem executiva como “coercitiva”.
As origens do GAESA remontam à década de 1980, mas o grupo ganhou força após o colapso da União Soviética em 1991. Com as Forças Armadas em dificuldades financeiras, Raúl Castro convenceu Fidel a permitir que os militares assumissem setores estatais como o turismo para garantir recursos. Analistas dizem que, inicialmente, a medida ajudou a recuperar a economia nos anos 1990, com reinvestimentos em serviços públicos. Entretanto, a presença militar no comando econômico se aprofundou quando Raúl assumiu a presidência em 2008.
Em 2011, Raúl colocou seu genro, o general Alberto Rodríguez López-Calleja, à frente do GAESA. Após a morte de Rodríguez em 2022, a brigadista Ania Guillermina Lastres Morera foi nomeada para o cargo e passou a ser alvo de sanções norte-americanas neste mês. Há indícios de que membros da família Castro mantêm influência: Raúl Guillermo Rodríguez Castro, neto de Raúl e filho do comandante falecido, manteve contatos com Lastres e, em 2024, teria viajado com ela a Panamá em um jato particular, onde o GAESA registrou empresas para tentar driblar sanções, segundo investigação da imprensa local.
Imagem: Divulgação
O neto, apelidado “el Cangrejo”, ganhou destaque por participar de negociações com representantes dos EUA neste ano. Outro interlocutor do regime é Óscar Pérez-Oliva Fraga, sobrinho-neto dos irmãos Castro, atualmente vice-primeiro-ministro e ministro do Comércio Exterior e Investimento Estrangeiro.
Críticos apontam que as prioridades de investimento do GAESA contribuíram para o encolhimento de setores tradicionais da economia. Depois da reaproximação com os EUA em 2015, o conglomerado apostou fortemente no turismo, construindo 121 hotéis até 2025 — contra 56 uma década antes — e acrescentando 22 mil quartos. A estratégia, contudo, sofreu reveses: em 2017, medidas restritivas do governo Trump e, em 2020, a pandemia reduziram drasticamente o fluxo de visitantes.
Dados governamentais indicam que em 2024 quase 40% do orçamento foi destinado ao turismo e hospitalidade, cerca de US$ 1,5 bilhão, mas a taxa de ocupação naquele ano ficou em 30%. O montante reservado ao setor foi aproximadamente 11 vezes maior do que o combinado para educação e saúde, enquanto os gastos com educação caíram 26% em relação a 2023. Observadores citaram o abandono de setores como a indústria açucareira, hoje em colapso, e a necessidade de importar açúcar para consumo interno, inclusive dos EUA.
Especialistas ouvidos no passado destacaram que, embora os militares tenham sido gestores mais ágeis em determinados momentos, a estrutura do GAESA mistura lógica empresarial e organização militar, o que reduz incentivos para mudanças políticas, salvo quando beneficiem a própria instituição.
O GAESA mantém também presença internacional, com empresas em Angola que, segundo relatos, geram centenas de milhões de dólares anuais em áreas como educação, saúde e construção. No cenário interno, a concentração de poder econômico nas mãos do conglomerado e a falta de transparência continuam a alimentar críticas sobre o impacto das decisões empresariais no bem-estar da população cubana.
Com informações de Infomoney

Gudyê GR6 é editor-chefe e especialista em tendências musicais e entretenimento na GR6, a maior produtora de funk do Brasil. Com anos de experiência no mercado fonográfico, Gudyê lidera a equipe de conteúdo trazendo as últimas notícias sobre música, cultura urbana. Autor do Post: Gudyê GR6