O Mito de Sísifo e o segredo que as empresas ignoram sobre engajamento

Quando aceitar a pedra cria propósito — e por que bônus e cargos, sozinhos, não resolvem

Sísifo empurra. A pedra desce. Ele recomeça. No escritório, a cena se repete em planilhas, metas mensais e ciclos de promoção. A diferença entre sobreviver à rotina e encontrar motivação está na maneira como encaramos essa subida incessante.

Da montanha ao escritório

Na tradição grega, a punição de Sísifo virou metáfora para tarefas eternas. Séculos depois, pensadores modernos propuseram uma virada: o valor do trabalho pode surgir no próprio esforço, não apenas na conquista do cume.

Essa ideia bate de frente com o padrão corporativo: metas que se reiniciam em janeiro, promoções como o prêmio final, e a sensação de que o sentido está sempre adiante, nunca no presente. Resultado: muita energia gasta esperando um destino que pode não trazer satisfação duradoura.

Isso não significa minimizar a importância de salário justo. Remuneração adequada é condição básica — e sua ausência mina o engajamento. Mas pagar bem não garante compromisso nem entusiasmo. O elemento faltante, frequentemente, é a possibilidade de ver a própria tarefa como significativa.

Há quem lide com trabalhos simples e, ainda assim, se destaque. A diferença costuma ser prática: pessoas que assumem responsabilidade, que tratam a entrega com cuidado e curiosidade, acabam sendo lembradas quando surgem oportunidades.

Os números confirmam o choque: o relatório State of the Global Workplace 2025 mostra que o desengajamento custa cerca de US$ 8,9 trilhões por ano — algo em torno de 9% do PIB global. É um sintoma de falta de sentido tão grave quanto qualquer falha de processo.

Imagem: Divulgação

O papel dos líderes, então, não é apenas desenhar metas mais fáceis ou apontar rotas. É permitir que cada colaborador enxergue a própria “pedra” como um projeto pessoal — algo que possa moldar, melhorar e, sim, assumir como seu. Quando isso acontece, a abordagem muda: a subida ganha propósito mesmo sem garantia de chegada gloriosa.

Repensar o engajamento é reavaliar prioridades. Fazer do resultado uma consequência, não a obsessão. Valorizar execução, frequência e intenção. Pequenas vitórias do dia a dia acumulam impacto real — para o profissional e para a organização.

No fim, a pedra continuará a descer. A escolha é saber se vamos reagir como vítimas do destino ou como quem transforma o esforço em sentido.

Fernanda Abilel — professora na FGV e sócia‑fundadora da How2Pay.