Dono “não-dono”, puxadinho e outras armadilhas que travam até 1 em cada 4 vendas
Levantamento com 14 milhões de imóveis revela por que propostas emperram e onde estão os riscos escondidos
Quase metade das matrículas analisas no país traz algum tipo de obstáculo — e para 30% dos casos a venda fica juridicamente inviável na hora. É esse descompasso entre o que existe no terreno e o que consta no registro que explica por que ofertas despencam e negócios são abortados na reta final.
O cenário em números
A análise da proptech Kenlo, que cruza 25 milhões de anúncios e identifica 14 milhões de imóveis únicos, conecta milhares de imobiliárias e corretores pelo Brasil. O retrato que emerge é direto: entre 10% e 25% das propostas de compra e venda não vão adiante por problemas documentais ou jurídicos. Em outra medida, cerca de 40% das matrículas exibem alguma irregularidade. Quando o problema é crítico, a transação simplesmente não acontece.
Por que isso trava a venda na prática
Há consequências imediatas. Bancos não liberam financiamento sobre áreas não registradas. Compradores receiam litígios. E vendedores — muitas vezes sem saber — arcam com custos de regularização que corroem o lucro. Esses entraves transformam uma negociação simples em processo burocrático demorado e caro.
Espólio e inventário: a conta que ninguém calcula
Uma das causas mais frequentes é a sucessão não finalizada. Proprietários falecidos sem a partilha formal deixam o imóvel sem um título claro. Nesses casos, para vender é preciso alvará judicial ou concluir inventário — procedimentos que podem levar meses e elevar os custos do vendedor.
Cláusulas e indisponibilidades: quando o imóvel não pode ser transferido
Existem matrículas com cláusulas que tornam o bem intransferível enquanto vigorar a condição, ou com decisão judicial que impede qualquer negócio até o levantamento do bloqueio. São barreiras legais que anulam negociações e exigem intervenção judicial para serem resolvidas.
Falta de outorga conjugal e quebras na cadeia de propriedade
Vender sem a assinatura esperada do cônjuge ou sem comprovação de toda a cadeia de titulares cria risco real de nulidade. Situações em que nomes aparecem e desaparecem ao longo da cadeia documental geram dúvidas sobre quem de fato tem poder para vender — e isso paralisa cartórios e compradores.
Alienação fiduciária: o banco ainda é dono
Financiamento em aberto é outro freio comum. Enquanto a instituição financeira figura como proprietário fiduciário, a venda depende de quitação ou da anuência do credor. Na prática, muitos negócios só avançam após acordo financeiro ou liquidação da dívida.
Imagem: Divulgação
Puxadinho: a ampliação que não existe no papel
Ampliações e obras não averbadas — os chamados puxadinhos — criam uma “invisibilidade jurídica”. Para registro, aquela área adicional não existe. O comprador leva menos do que foi apresentado. E, pior, regularizar a obra costuma emergir com débitos tributários e previdenciários acumulados, como ISS e INSS sobre a construção.
Impacto financeiro direto
Regularizar um imóvel por conta de pendências pode consumir grande parte do ganho esperado na venda. Custos com taxas, impostos, ajustes contratuais e exigências judiciais corroem a margem. Em muitos casos, o ativo perde poder de barganha frente a compradores e instituições de crédito.
O olhar das fontes
Para Mickael Malka, CEO da Kenlo, as dificuldades mais repetidas envolvem heranças não registradas e confusões patrimoniais — cenários que escapam ao vendedor comum até o momento da negociação. A advogada Rute Endo, do escritório Ivan Endo, reforça que espólios pendentes e edificações sem averbação costumam ser os problemas mais onerosos, com riscos que vão além do atraso: afetam preço, financiamento e segurança jurídica.
O que muda no mercado
Esses entraves empurram negociações para processos mais longos e caros. Imóveis prontos para venda — com matrícula limpa e obras averbadas — têm vantagem competitiva. A transparência documental passou a ser um atributo valorizado, tanto para quem vende quanto para quem financia.
Fecho
Por trás de muitas ofertas frustradas está um detalhe técnico que transforma uma casa em ativo líquido — ou em problema judicial. Para o mercado imobiliário, a demanda é clara: negócios só fluem quando o registro traduz fielmente a realidade do imóvel. Fora disso, a proposta esbarra antes mesmo de chegar ao comprador.

Gudyê GR6 é editor-chefe e especialista em tendências musicais e entretenimento na GR6, a maior produtora de funk do Brasil. Com anos de experiência no mercado fonográfico, Gudyê lidera a equipe de conteúdo trazendo as últimas notícias sobre música, cultura urbana. Autor do Post: Gudyê GR6