A Europa é o continente que mais aquece no planeta, com aumento médio de temperatura de 2 graus nos últimos 50 anos, segundo a Organização Meteorológica Mundial (OMM). No fim de junho de 2026, várias nações europeias registraram temperaturas acima de 40°C, com recordes históricos em cidades da Alemanha, França, Espanha, Hungria e Áustria.
O aquecimento registrado no continente entra em conflito direto com a meta do Acordo de Paris, assinado em 2015, que determina limitar a elevação da temperatura global a bem abaixo de 2°C em relação aos níveis pré-industriais e buscar o limite de 1,5°C.
O que provocou a onda de calor
Especialistas apontam um bloqueio atmosférico conhecido como Omega Block como causa imediata do surto de calor: uma extensa área de alta pressão estacionária que funcionou como uma “cúpula”, aprisionando ar quente e seco e impedindo a formação de nuvens e precipitação. Segundo Mariana Pallotta, meteorologista do Cemaden (Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais), esse tipo de sistema é comum no verão europeu, mas tem seus efeitos agravados pelo aquecimento global, que torna extremos de temperatura mais intensos.
Fatores de longo prazo
Vários processos estão ampliando a tendência de aquecimento na Europa. Ao norte do continente, o derretimento do gelo marinho expõe mais superfície oceânica que absorve radiação solar. Na mesma direção, a cobertura de neve diminuiu: o Copernicus, programa de observação da Terra da União Europeia, registrou que o pico anual de neve em 2025 ficou cerca de um terço abaixo da média.
Essas mudanças alteram a circulação atmosférica. A velocidade e a ondulação das correntes de jato influenciam a movimentação de sistemas meteorológicos; quando a corrente se torna mais sinuosa ou enfraquecida, favorece bloqueios atmosféricos que mantêm condições como calor ou chuva sobre uma mesma região por longos períodos. Gustavo Verardo, meteorologista da Climatempo, explica que esse mecanismo foi determinante para a atual onda de calor e a ausência de chuvas.
Infraestrutura, sociedade e saúde
A rápida elevação das temperaturas expõe a vulnerabilidade estrutural da Europa: muitas edificações foram projetadas para o frio, com isolamento voltado ao aquecimento, janelas pequenas e densidade urbana elevada, o que dificulta o resfriamento. A rede elétrica também não está preparada para picos de consumo no verão, situação agravada pela crise energética decorrente da guerra entre Rússia e Ucrânia.
Roberto Uebel, professor de relações internacionais da ESPM, afirma que o fim imediato do conflito reduziria parte da dependência energética europeia, mas não resolveria a necessidade de modernização da matriz energética, considerada essencial para conciliar segurança energética, pressões geopolíticas e mudanças climáticas.
Na prática, a população sente aumentos no custo de energia e problemas de fornecimento. O documentarista Felipe Cereser, que mora em Turim (Itália), relata que o preço da energia subiu muito desde o início da guerra, que muitos não têm acesso a ar-condicionado, e que houve quedas de energia superiores a 10 horas em alguns bairros.
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A onda de calor também tem impacto severo na saúde pública. O diretor-geral da Organização Mundial da Saúde, Tedros Adhanom Ghebreyesus, informou que mais de 1.300 mortes em excesso foram registradas na última semana de junho e que mais de 150 milhões de pessoas na Europa foram afetadas pelo calor extremo. Estudos referentes ao período de 2000 a 2019 estimam cerca de 489 mil mortes anuais relacionadas ao calor, com 45% ocorrendo na Ásia e 36% na Europa.
O neurologista Dr. Sérgio Jordy afirma que temperaturas muito altas dificultam a dissipação de calor pelo organismo, elevando risco de problemas cerebrais e sintomas como cefaleia, tontura, convulsões e acidente vascular cerebral. Grupos mais vulneráveis incluem pessoas com doenças crônicas (diabetes, hipertensão), portadores de doenças neurológicas, pacientes renais, idosos e crianças. Ele recomenda hidratação e evitar atividades nos períodos de pico térmico.
El Niño e a Europa
O fenômeno El Niño, já em início, aquece anormalmente as águas do Pacífico Equatorial, mas não costuma exercer grande influência sobre o clima da maior parte da Europa, especialmente da Europa Central. Mariana Pallotta destaca que, nesse estágio inicial do El Niño, a atual onda de calor não tem relação direta com o fenômeno.
Em 2026, a ocorrência de recordes de temperatura na Europa e a combinação de fatores meteorológicos e estruturais indicam que eventos extremos como o atual devem tornar-se mais frequentes se as tendências de aquecimento persistirem.
Com informações de Olhardigital

Gudyê GR6 é editor-chefe e especialista em tendências musicais e entretenimento na GR6, a maior produtora de funk do Brasil. Com anos de experiência no mercado fonográfico, Gudyê lidera a equipe de conteúdo trazendo as últimas notícias sobre música, cultura urbana. Autor do Post: Gudyê GR6