A confirmação de um novo episódio de El Niño acendeu o alerta para a possibilidade de uma temporada de queimadas mais severa no Brasil. Modelos climáticos indicam que o fenômeno deve permanecer ativo até o início de 2027 e há alta probabilidade de que atinja intensidade forte ou muito forte, favorecendo temperaturas acima da média e redução das chuvas em diversas regiões do país.

Pesquisadores ouvidos afirmam que ainda é cedo para dizer que o cenário será igual ao observado em 2024 — quando cerca de 30 milhões de hectares foram atingidos pelo fogo —, mas concordam que os próximos meses exigirão planejamento, monitoramento e ações preventivas para reduzir riscos e impactos.

Jarlene Gomes, pesquisadora e coordenadora técnica do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM), ressalta que a maior incerteza hoje é quanto à duração do episódio. Segundo ela, se o El Niño se mantiver por mais tempo, haverá atraso ou redução das chuvas no período esperado, o que deixa solo e vegetação mais secos e aumenta a inflamabilidade do ambiente.

Lincoln Muniz Alves, pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), também aponta que as previsões exigem atenção, sobretudo no segundo semestre, mas lembra que a severidade de uma temporada depende de vários fatores além do El Niño, como seca acumulada, umidade da vegetação, uso humano do fogo e capacidade de prevenção, fiscalização e resposta operacional.

Como o El Niño eleva o risco de incêndios

Biomas como a Amazônia — especialmente o arco sul —, o Cerrado, o Pantanal e setores da Caatinga são apontados como os mais vulneráveis a períodos secos e calor intenso durante episódios fortes do El Niño. Na Amazônia, pesquisadores observaram em 2024 um aumento de focos em vegetação nativa, um padrão incomum em um bioma historicamente úmido.

Impactos sociais e econômicos

Além dos prejuízos ambientais e da perda de biodiversidade, os incêndios afetam a economia local, o trabalho rural e a infraestrutura. A fumaça compromete a qualidade do ar e eleva a incidência de doenças respiratórias, pressionando o sistema público de saúde e aumentando internações, especialmente entre crianças, idosos e pessoas com comorbidades.

Pesquisadores destacam que povos indígenas, comunidades tradicionais e moradores rurais costumam ser particularmente atingidos, enfrentando perdas econômicas e dificuldades no acesso a serviços essenciais durante temporadas severas de queimadas.

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Prevenção e governança

A partir da experiência de 2024, houve mudança de enfoque: da reação ao combate para a prevenção e manejo integrado do fogo. A Política Nacional de Manejo Integrado do Fogo (MIF), aprovada em 2024, substitui a lógica do “fogo zero” por uma abordagem que reconhece usos distintos do fogo — cultural, produtivo, ecológico e predatório — e prioriza planejamento, prevenção e integração entre setores.

O IPAM apoia estados na elaboração de mapas de risco, diagnósticos territoriais e planos de manejo, cruzando dados sobre queimadas anteriores, desmatamento e condições climáticas para identificar áreas vulneráveis. Ferramentas tecnológicas, como satélites e sistemas de monitoramento, são consideradas úteis, desde que a informação seja traduzida em ações acessíveis para quem atua no campo.

Iniciativas de integração de dados, como o SISFOGO previsto nas resoluções da Comissão Nacional de Manejo Integrado do Fogo (COMIF), devem centralizar informações de produtores, municípios, estados e governo federal para apoiar planejamento, autorizações e fiscalização.

Especialistas afirmam que, apesar de avanços em monitoramento e na legislação, o país não pode descartar a possibilidade de uma nova temporada extrema caso a estiagem se prolongue. A recomendação é antecipar respostas, fortalecer brigadas e fiscalizações, controlar o uso do fogo em períodos críticos e mobilizar a sociedade para reduzir a probabilidade de repetição dos eventos registrados em 2024.

Com informações de Olhardigital