Pesquisadores da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo e do Hospital das Clínicas desenvolveram um exame capaz de identificar, em seis horas, bactérias resistentes a carbapenêmicos em pacientes internados em unidades de terapia intensiva (UTIs). Os resultados foram divulgados recentemente em estudos publicados em periódicos científicos internacionais.

O método reduz em até 60 horas o tempo necessário para confirmar a colonização por Enterobactérias Resistentes a Carbapenêmicos, microrganismos que incluem espécies como Klebsiella pneumoniae e Escherichia coli e que a Organização Mundial da Saúde classifica como ameaça crítica à saúde pública. Com a rapidez do teste, hospitais podem revisar mais cedo medidas de isolamento adotadas por precaução e usar recursos de forma mais eficiente.

Como funciona o exame

O teste começa com a coleta por swab retal. A amostra permanece por seis horas em um meio de enriquecimento e, em seguida, é submetida a um ensaio imunocromatográfico que detecta a produção das enzimas responsáveis pela resistência aos carbapenêmicos. A técnica também identifica o tipo de carbapenemase presente, informação útil para orientar vigilância e controle de infecções.

Segundo o infectologista Matias Chiarastelli Salomão, professor colaborador da Faculdade de Medicina da USP e um dos autores dos estudos, o diferencial da tecnologia é combinar velocidade, simplicidade e custo operacional reduzido. Ele destaca que o teste oferece rapidez semelhante à de métodos moleculares, porém a um custo inferior e sem necessidade de equipamentos complexos, o que pode facilitar a adoção em hospitais públicos e laboratórios com recursos limitados.

Na fase de validação em laboratório, o método apresentou desempenho máximo para detectar as principais enzimas relacionadas à resistência. Em amostras coletadas em UTIs, a sensibilidade variou conforme a qualidade da coleta, com melhores índices quando havia quantidade adequada de material biológico.

Na prática hospitalar, o tempo médio para retirar pacientes sem colonização das medidas de isolamento caiu de 47 para 23 horas. Mesmo com esse ganho operacional, os estudos não registraram redução estatisticamente significativa na aquisição dessas bactérias durante a internação.

Imagem: Saiful52 – Shutterstock

Outra investigação da equipe apontou fatores ligados à colonização e à aquisição em ambiente hospitalar: pacientes transferidos entre hospitais ou com internação recente têm maior probabilidade de já chegar colonizados à UTI; o uso de antibióticos de amplo espectro, a presença de sonda urinária e uma alta proporção de pacientes colonizados na mesma unidade aumentam o risco de transmissão.

Os pesquisadores também projetam impacto financeiro: embora a cultura microbiológica convencional seja o exame individualmente mais barato, a diminuição de isolamentos desnecessários pode representar uma economia semanal estimada entre US$ 2.400 e US$ 3.900 para cada 100 leitos de UTI.

Para incorporar o teste ao Sistema Único de Saúde, segundo os autores, será necessário cumprir etapas regulatórias e passar pela avaliação dos órgãos responsáveis pela incorporação de novas tecnologias ao sistema público.

Com informações de Olhardigital