Adam Cheyer, engenheiro americano conhecido por ter ajudado a criar a assistente virtual Siri, falou em entrevista exclusiva à Forbes Brasil sobre as diferenças entre as assistentes que desenvolveu e os modelos de linguagem atuais, além de traçar previsões para realidade aumentada e robótica. Cheyer destacou que a Siri foi comprada pela Apple em 2010 e passou a integrar iPhones a partir do modelo 4S, lançado em 2011.

No currículo, ele também figura como fundador da Viv Labs, vendida à Samsung em 2016 e base para o assistente Bixby, participou da criação do Change.org — que hoje reúne quase 600 milhões de usuários em 197 países — e da Sentient, plataforma pioneira de machine learning distribuído com mais de dois milhões de CPUs e GPUs. Sua startup mais recente, GamePlanner.AI, foi adquirida pelo Airbnb em 2023.

Cheyer afirmou que, diferentemente dos LLMs predominantes, a Siri original agregava cerca de cinquenta serviços parceiros em uma experiência conversacional e gráfica extensível, permitindo solicitações transacionais reais, como “chame um táxi para minha casa” — antes do surgimento do Uber — ou “faça uma reserva para quatro pessoas na próxima quarta‑feira às 19h30 (Brasília UTC-3)”. Segundo ele, essa integração orquestrava múltiplos serviços em execução ao vivo, algo que os modelos de linguagem ainda realizam em grau muito menor.

Sobre a Viv, Cheyer ressaltou que o sistema ia além do retorno em texto: gerava interfaces adaptativas para os dispositivos dos usuários e era capaz de sintetizar código executável para orquestrar serviços independentes diante de pedidos inéditos, com tempo de resposta da ordem de 50 milissegundos.

Na avaliação do engenheiro, a onda atual de “IA agêntica” ainda precisa evoluir em aspectos concretos de execução: autenticação, controle de acesso, fronteiras transacionais, APIs ao vivo e experiência de usuário rica — não apenas textos e carrosséis de imagens. Ele citou padrões emergentes como MCP, A2A e ACP e afirmou que esses não definem plenamente as capacidades necessárias. Cheyer também apontou a ausência de um modelo de negócios claro para descoberta e monetização dentro do ecossistema de IA, comparando com mecanismos como SEO e lojas de aplicativos.

Ao explicar sua previsão para a adoção em massa da realidade aumentada, Cheyer apresentou a chamada “Teoria do 10+”, que identifica ciclos de mudança nas interfaces computacionais: computadores pessoais em 1984, navegadores por volta de 1995, smartphones em 2007 e assistentes conversacionais em torno de 2021. Mantendo esse ritmo, ele prevê que a próxima grande transição ocorrerá em 2035, quando óculos ou lentes de AR substituiriam telas tradicionais.

Sobre o mercado atual de óculos inteligentes, Cheyer afirmou que ele ainda é incipiente, concentrado em gravação de vídeo, áudio e acesso a assistentes, enquanto dispositivos focados em projeção de AR, como o Apple Vision Pro, têm experiências promissoras, mas enfrentam limitações de peso, autonomia de bateria e refinamento da interação que impedem a adoção em massa por ora.

Adam Cheyer, cocriador da Siri, avalia limitações dos LLMs e prevê fim das telas com realidade aumentada em 2035

Imagem: Divulogação Adam Cheyer co-criador da Siri da Apple

Quanto à robótica física e robôs humanoides, Cheyer disse esperar progresso, mas em ritmo mais lento do que muitos preveem. Ele destacou a complexidade da destreza humana e a necessidade de modelos de mundo que incorporem dinâmica, texturas e física — por exemplo, como uma toalha dobra, como uma porta gira ou quanta força aplicar para não danificar um fruto — exigindo vastas experiências visuais e físicas do mundo real.

Ao falar a empreendedores, Cheyer recomendou evitar perseguir apenas as tecnologias em alta e, em vez disso, antecipar o que será relevante no futuro, construindo soluções antes que a tendência se torne óbvia. Ele lembrou sua trajetória como exemplo: das assistentes virtuais à presença no Change.org, à Sentient e à Viv Labs.

Por fim, Cheyer relatou como a prática de ilusionismo influenciou sua carreira — tanto na criatividade quanto na apresentação de ideias — e compartilhou duas lições aprendidas com Steve Jobs: não se apegar às conquistas passadas e manter uma cultura de iteração contínua e obsessão por detalhes, exemplificada por demonstrações semanais dentro da Apple.

A entrevista foi publicada com exclusividade pela Forbes Brasil.

Com informações de Forbes