Cientistas identificaram semelhanças neurais entre humanos e pinípedes — como focas e leões-marinhos — que sugerem que adaptações ao mergulho profundo podem ter favorecido o surgimento do controle voluntário da voz. A conclusão está descrita em um estudo publicado na revista Science (DOI 10.1126/science.adx9367).

O que foi descoberto

Pesquisadores observaram que esses mamíferos marinhos desenvolveram conexões diretas do córtex motor para os neurônios responsáveis pela expiração, criando um atalho neural que permite controlar a laringe de forma consciente. Segundo o trabalho, esse circuito facilita a modulação do fluxo de ar necessária para produzir sons mais complexos.

Por que isso importa

A necessidade de regular a respiração durante mergulhos longos teria exigido dos pinípedes um controle cortical mais sofisticado sobre a laringe e as vias aéreas. Essa demanda transformou respostas reflexas em ações monitoradas pelo córtex, gerando a infraestrutura neuromuscular que, nos humanos, sustenta a fala voluntária.

Principais pontos levantados pelo estudo

O estudo destaca quatro elementos centrais dessa transição biológica: a coordenação laringal, que permite fechar as vias aéreas conscientemente; a modulação do ar, com controle fino do fluxo pulmonar para variados padrões sonoros; a plasticidade neural, evidenciada pela expansão de áreas motoras dedicadas à garganta; e a capacidade de imitação sonora observada em focas, que aprendem novos sons do ambiente.

Comparação com outros grupos animais

Ao comparar pinípedes com primatas não humanos, os autores apontam que muitos primatas possuem vocalizações predominantemente emocionais e com aprendizado acústico limitado, enquanto focas exibem controle vocal altamente voluntário e aptidão para imitação. Essa distinção reforça a hipótese de que estruturas motoras derivadas de exigências respiratórias podem ter sido reutilizadas ao longo da evolução para fins comunicativos mais complexos.

Imagem: Divulgação

Implicações e próximos passos

Os autores afirmam que a descoberta amplia a compreensão sobre como circuitos motores semelhantes podem emergir em contextos ecológicos distintos, como oceanos e savanas. O estudo indica que o próximo passo é mapear como esses circuitos evoluíram e se expandiram para sustentar elementos da linguagem humana, como gramática e sintaxe.

O trabalho não afirma que a fala humana tenha se originado diretamente dos mamíferos marinhos, mas aponta que adaptações ao mergulho forneceram um modelo biológico convergente que pode explicar parte da base neuromotora da comunicação vocal complexa.

Com informações de Olhardigital