O aumento acentuado do preço do querosene de aviação tem levado companhias aéreas a reduzir malhas, cancelar voos e deixar aeronaves no solo, com efeitos sentidos em várias regiões do mundo.

A holandesa KLM anunciou na quinta (16) o cancelamento de 80 voos de ida e volta no Aeroporto de Schiphol ao longo do próximo mês. A medida a coloca no mesmo grupo de transportadoras que já reduziram itinerários, como United Airlines, Lufthansa e Cathay Pacific.

Dados da consultoria Cirium indicam que a capacidade global prevista para maio caiu cerca de 3 pontos percentuais e que 19 das 20 maiores empresas do setor fizeram cortes de voos. A Cirium está revisando sua projeção inicial de crescimento anual de 4% a 6% e alerta que, em alguns cenários, uma retração de até 3% é possível. “Parece extremamente provável que venham novas reduções pela frente”, escreveu Richard Evans, consultor sênior da Cirium, em relatório divulgado na quinta-feira.

O setor não vê solução de curto prazo. Ed Bastian, presidente da Delta Air Lines, informou um custo adicional de US$ 2,5 bilhões com combustível neste trimestre e afirmou que rotas operadas “no limite” poderão ser reavaliadas.

Além do preço, há preocupação com a oferta de combustível. A Agência Internacional de Energia (AIE) estimou que a Europa dispõe de “talvez seis semanas” de estoque de querosene. Ryanair, Virgin Atlantic e EasyJet projetaram disponibilidade do produto apenas até meados de maio. A União Europeia alertou para possíveis problemas de abastecimento no futuro próximo e prepara um plano de ação conjunto caso a situação no Estreito de Ormuz se prolongue, disse um porta-voz em Bruxelas.

Na sexta-feira, o Irã afirmou que o estreito estava “completamente aberto” ao tráfego comercial, e o petróleo Brent chegou a recuar até 11%, mas analistas consideram a trégua frágil.

As medidas adotadas pelas companhias variam. A Lufthansa encerrou a unidade CityLine, retirou 27 aeronaves de operação e deixou no solo widebodies mais antigos; Till Streichert, diretor financeiro do grupo, chamou o pacote de medidas de “inevitável” diante do aumento do preço do querosene e da instabilidade geopolítica. A suíça Edelweiss suspendeu voos para Denver e Seattle e reduziu frequências para Las Vegas.

A Air Canada cortou as operações de Montreal e Toronto para o aeroporto John F. Kennedy, em Nova York, mantendo voos para Newark e LaGuardia. A Norse Atlantic suspendeu todos os voos de e para Los Angeles. A Virgin Atlantic abandonou a rota Londres-Riad após um ano, e a British Airways encerrou o trecho até Jeddah.

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Companhias nigerianas alertaram sobre “ameaças existenciais” e a possibilidade de suspender operações se governos não atuarem para reduzir o preço do combustível. A Qantas anunciou redução de voos para os Estados Unidos e corte de cerca de 5% da capacidade doméstica, projetando uma despesa adicional de A$ 800 milhões (US$ 575 milhões) com combustível no segundo semestre fiscal.

A Cathay Pacific informou corte de 2% na frequência de voos na Ásia-Pacífico entre meados de maio e o fim de junho; sua unidade de baixo custo, HK Express, reduzirá capacidade em 6%. A empresa também passou a aplicar taxas extras de combustível de até US$ 400 em passagens de longa distância. “Exploramos todos os meios à nossa disposição para manter nossos voos operando normalmente”, disse Lavinia Lau, diretora comercial da Cathay, em 11 de abril, acrescentando que as medidas não foram suficientes para absorver a alta do custo do combustível.

Enquanto muitas empresas europeias contam com hedge para o combustível nos próximos meses, a maioria das americanas não adota essa proteção e enfrenta custos maiores. A United Airlines foi uma das primeiras a anunciar cortes, reduzindo 5% da capacidade neste ano com efeitos até setembro; a Delta recuou cerca de 3,5%.

As companhias chinesas, também sem proteção via hedge, intensificaram cancelamentos diários, segundo análise da Bloomberg com dados da provedora chinesa DAST e da BloombergNEF. Passageiros na China registraram reclamações nas redes sociais sobre cancelamentos de última hora antes da Golden Week de cinco dias, em maio. Analistas alertam que, se o preço do querosene permanecer alto por período prolongado, novos cortes e cancelamentos são prováveis.

Os ajustes de capacidade refletem um movimento de preservação do setor diante da perspectiva de piora nos negócios provocada pelo conflito no Oriente Médio; mesmo com o fim dos combates, a reconstrução de infraestrutura danificada pode demorar meses ou anos.

Com informações de Investnews