Transmissão: Band | Space

O banco BTG Pactual estimou que a SpaceX poderá alcançar receita anual de US$ 1 trilhão até 2031, segundo relatório de quase 300 páginas mencionado pela Forbes. A projeção parte do crescimento da companhia desde a previsão de US$ 18,7 bilhões em receita para 2025 até a meta trilionária em seis anos.

Projeção e valuation

Ao iniciar cobertura da empresa, o BTG recomendou compra e fixou preço-alvo de US$ 225 por ação (R$ 1.161). Para calcular o valuation, os analistas aplicaram um modelo de fluxo de caixa descontado que projeta cada unidade de negócios até 2036. O banco atribui 59% do valor ao negócio de inteligência artificial, 37% à conectividade e 4% às operações de lançamentos espaciais.

Divisão por receitas

Na estimativa do BTG, dos US$ 1 trilhão anuais previstos para 2031, US$ 691 bilhões viriam de infraestrutura de IA, US$ 243 bilhões da divisão de conectividade (Starlink) e US$ 23 bilhões dos lançamentos espaciais.

Moat e escala operacional

O relatório destaca o chamado “fosso competitivo” da SpaceX, construído ao longo de mais de duas décadas por meio de experiência operacional. O primeiro voo do Falcon 9, em 2010, teria reduzido o custo por quilo colocado em órbita para cerca de US$ 2.700 — queda de 85% em relação à média histórica de aproximadamente US$ 18.500 por quilo. O primeiro estágio, responsável por 60% do custo da missão, tornou-se recuperável e alguns propulsores já ultrapassaram 30 voos.

A sequência de lançamentos da empresa ilustra essa escala: 13 missões em 2019, 25 em 2020, 31 em 2021 e 165 lançamentos comerciais em 2025. Segundo o BTG, a SpaceX teria colocado mais de 80% da massa em órbita nos últimos anos e tem a agenda de lançamentos da família Falcon preenchida até 2029.

Starship e custos por quilo

O banco aponta o Starship como elemento central para o crescimento de curto e médio prazo. Com 124 metros de altura (ante 70 metros do Falcon 9) e 8.240 toneladas de empuxo, o veículo foi projetado para ser totalmente reutilizável. O BTG projeta que o Starship pode reduzir o custo para US$ 200 por quilo — uma queda de cerca de 99% em relação à média histórica da indústria — condicionando a viabilidade de novos projetos no setor.

O relatório menciona marcos esperados: o voo 12, realizado em maio deste ano, introduziu a versão V3 e testou o escudo térmico; para 2026, prevê-se o primeiro lançamento dos satélites Starlink V3, a primeira captura da nave pela torre e a operação da base em Cabo Canaveral; em 2027, a meta é alcançar a reutilização rotineira dos dois estágios.

Starlink: caixa e potencial

A Starlink, núcleo de caixa da SpaceX, opera mais de 9 mil satélites de banda larga e cerca de 650 satélites de conexão direta para celulares, representando aproximadamente 75% dos satélites ativos em órbita. A constelação atende mais de 10,3 milhões de clientes em mais de 160 países.

O BTG estima receita de conectividade de US$ 11,4 bilhões em 2025, dos quais US$ 7,2 bilhões vieram de consumidores e pequenas empresas e US$ 3,5 bilhões de contratos corporativos e governamentais. A margem Ebit teria subido para quase 40%, ante 26% em 2024. Ainda segundo o banco, a participação da Starlink em mercados potenciais é pequena: menos de 1% dos cerca de 1 bilhão de domicílios sem banda larga adequada; 5% do mercado aéreo potencial de 50 mil aeronaves; e presença limitada entre mais de 100 mil embarcações marítimas.

A iniciativa Starlink Mobile já firmou parcerias com mais de 30 operadoras em mais de 100 países, incluindo T-Mobile, Rogers e Kyivstar, e teria cerca de 7 milhões de dispositivos conectados em pouco mais de um ano. Dois eventos poderão acelerar a expansão: a aquisição de ativos de espectro da EchoStar por US$ 19,6 bilhões, prevista para ser concluída em 2027, e a entrada em operação dos satélites Mobile V2, que devem quadruplicar o número de feixes e aumentar em cerca de 50% a capacidade de transmissão de dados.

BTG projeta receita de US$ 1 trilhão para a SpaceX até 2031

Imagem: Divulgação

No cenário projetado pelo BTG, a receita da conectividade saltaria de US$ 17,8 bilhões em 2026 para US$ 243 bilhões em 2031, com US$ 125 bilhões vindos da banda larga e US$ 118 bilhões da telefonia via satélite.

IA, data centers e operações orbitais

O BTG projeta que a receita de inteligência artificial cresça de US$ 18,3 bilhões em 2026 para US$ 741 bilhões em 2031. A fusão com a xAI, concluída em fevereiro deste ano, integrou modelos como Grok e a plataforma Cursor, adquirida em junho por US$ 60 bilhões em ações.

Até o primeiro trimestre deste ano, a SpaceX operava cerca de 1 gigawatt de capacidade de data center distribuída entre os clusters Colossus 1 e 2 e já assinou contratos com a Anthropic e o Google, que gerariam, respectivamente, US$ 1,25 bilhão e aproximadamente US$ 920 milhões por mês. Ambos os contratos podem ser rescindidos por aviso prévio de 90 dias, segundo o relatório.

A grande aposta de longo prazo é a computação em órbita: a empresa testou inferência de IA em satélites e pretende lançar o primeiro satélite de computação AI1 em 2028, com painel solar de 150 kW, módulo de computação e cerca de 110 m² de radiadores, alcance total de 70 metros quando aberto. Cada satélite adicionaria 7 MW de capacidade, o que implica cerca de 145 lançamentos do Starship por gigawatt orbital, exigindo milhares de lançamentos anuais para cumprir as metas do modelo do banco.

O BTG também destaca riscos técnicos, como fornecimento e confiabilidade de chips (com cerca de 15% das GPUs necessitando reparo precoce) e dissipação de calor em escala orbital. Para mitigar gargalos de semicondutores, a SpaceX criou o projeto Terafab, consórcio com a Tesla e potencial participação da Intel e ASML; o banco estima gastos de US$ 225 bilhões da SpaceX até 2031, chegando a US$ 450 bilhões com a contribuição da Tesla.

Riscos e governança

Além de riscos técnicos e de cadeia de suprimentos, o relatório destaca a forte dependência da companhia em relação a Elon Musk, cuja eventual saída poderia provocar destruição de valor, na avaliação dos analistas. Outro ponto sensível é o fim do período de lock-up após a abertura de capital: o BTG calcula que o volume de papéis liberados nos próximos 12 meses equivaleria a cerca de 20 vezes o total negociado no IPO. Mesmo com Musk controlando cerca de 48,7% da empresa, a expectativa é de maior oferta de ações no mercado nesse período.

Mesmo diante dos riscos, o BTG conclui que a SpaceX reúne um mercado potencial gigantesco e uma vantagem competitiva construída ao longo de décadas, sustentando a tese de que os foguetes podem ser meios para negócios maiores em conectividade e inteligência artificial.

Com informações de Forbes