Em julho, o governo da China determinou a proibição de serviços de “namorados virtuais” baseados em inteligência artificial, citando o combate à dependência emocional e ao vício como justificativa. Plataformas de tecnologia como ByteDance e Alibaba tiveram de suspender essas funções, o que gerou reclamações de usuários nas redes sociais que afirmaram ter perdido “pilares espirituais” e parceiros digitais que já consideravam parte da família.
O fenômeno, porém, não é exclusivo daquele país. Pesquisa da Arco Educação mostra que 52% dos adolescentes brasileiros encontram dificuldade para fazer novas amizades, e 19% recorrem a sistemas de IA como companhia. As jovens foram as mais afetadas: 33,4% relataram problemas para estabelecer laços de amizade. A Organização Mundial da Saúde (OMS) já classifica a solidão como uma crise de saúde global, equiparada em urgência a outras questões sanitárias.
O psicólogo e pesquisador da USP Vitor Muramatsu alerta que a busca por companhia artificial em momentos de solidão representa risco, pois a “amizade” oferecida por chatbots é uma simulação programada. Segundo ele, esses sistemas não compreendem verdadeiramente emoções nem são amigos no sentido humano; funcionam como algoritmos treinados para reproduzir acolhimento emocional.
Muramatsu critica ainda a transferência de afetos para empresas privadas, dizendo que isso expõe sentimentos a programadores e interesses comerciais. A visão contrária vem de executivos do setor: Mark Zuckerberg, CEO da Meta, prevê um papel central da IA em um novo modelo de conexão social, em que amigos virtuais, terapeutas digitais e agentes automatizados poderão substituir parcialmente interações humanas tradicionais.
O pesquisador destaca também que a perda de círculos sociais é comum a partir dos 25 anos, por mudanças de rotina e prioridades, o que cria um mercado para serviços destinados a pessoas sem amizades. Ele exemplifica como essas plataformas podem se tornar atraentes ao enviar mensagens rotineiras e atenciosas, que usuários interpretam como demonstração de carinho.
Como isso se assemelha ao esquema de bets
Muramatsu relaciona o uso de aplicativos de companheirismo por IA a mecanismos de dependência semelhantes aos de apostas. Em modelos que exigem moedas ou tokens para manter conversas, afirma, instala-se uma necessidade de interação contínua que pode levar a prejuízos financeiros. O gatilho emocional é comparável: a sensação de ganhar ou perder desencadeia o mesmo sistema recompensador do cérebro.
Além disso, enquanto casas de apostas não se apresentam como amigos, os softwares de companhia simulam afeição, tornando a dependência mais insidiosa. Estudos e mercados apontam que aplicativos de relacionamento com IA estão projetados para movimentar bilhões de dólares até 2028, estimulados por promessas de disponibilidade constante, ausência de rejeição e apoio emocional sem reciprocidade.
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A pasteurização dos sentimentos como fonte primária dos problemas
Outra causa apontada por Muramatsu é a “pasteurização” das emoções causada pelo excesso de estímulos nas redes sociais. Com o cérebro sobrecarregado por conteúdos diversos — desde vídeos pessoais até notícias de guerra ou decisões judiciais —, ocorre uma normalização das reações que torna difícil distinguir o que realmente se sente.
Esse achatamento emocional diminui a sensibilidade diante de tragédias e também impede diferenciar um vínculo humano de uma boa simulação algorítmica. Para o pesquisador, é nessa lacuna que as amizades de IA se instalam: oferecendo acolhimento sob medida, elas não solucionam a solidão, mas contribuem para um enfraquecimento mais rápido das relações humanas.
Casos midiáticos ilustram o impacto: reportagens, como a do New York Times, já relataram pessoas que desenvolveram sentimentos românticos por sistemas de IA como o ChatGPT, evidenciando relações unilaterais que terminam, na avaliação de especialistas, vazias e sem reciprocidade. Estudos históricos sobre a atribuição de características humanas a objetos, como debates do século 19, também são citados para señalar a tendência de objetificação das relações.
A notícia segue sem desfecho definitivo, à medida que governos, especialistas e empresas debatem limites, regulamentação e os efeitos sociais do crescimento de companhias virtuais.
Com informações de Forbes

Gudyê GR6 é editor-chefe e especialista em tendências musicais e entretenimento na GR6, a maior produtora de funk do Brasil. Com anos de experiência no mercado fonográfico, Gudyê lidera a equipe de conteúdo trazendo as últimas notícias sobre música, cultura urbana. Autor do Post: Gudyê GR6