O endividamento das famílias brasileiras atingiu novo recorde em fevereiro de 2026, quando as dívidas com o Sistema Financeiro Nacional passaram a representar 49,9% da Renda Nacional Disponível Bruta (RNDB), segundo dados do Banco Central. Ao mesmo tempo, o comprometimento da renda dedicando-se ao pagamento de dívidas alcançou 29,7%.
Como se distribui a dívida
Excluído o crédito habitacional, que costuma ter prazos mais longos e custo menor, o comprometimento da renda subiu para 27,1% em fevereiro. Do total de 29,7 pontos percentuais do comprometimento, cerca de 10,6 pontos correspondem ao pagamento de juros, valor que não reduz o principal da dívida nem gera patrimônio.
Modalidades mais onerosas e efeito sobre os mais vulneráveis
O custo dos juros se concentra em modalidades de maior risco e maior custo para o consumidor, como rotativo do cartão de crédito, cheque especial e crédito pessoal não consignado. O Comitê de Estabilidade Financeira do Banco Central destacou em relatório que essas carteiras, classificadas internamente como de maior risco, têm crescido acima das modalidades de menor risco. Dados do Banco Central indicam ainda que 39,3% das operações de crédito rotativo no cartão são contratadas por trabalhadores com renda inferior a dois salários mínimos.
Índice de desconforto e paradoxo do crédito
A Fundação Getulio Vargas (FGV) calculou o Índice de Desconforto de Crédito (IDC) em 0,94 em janeiro de 2026, o que corresponde a 94% do pior momento registrado na série histórica. Os pesquisadores do Centro de Estudos em Microfinanças e Inclusão Financeira da FGV (FGVcemif) descrevem o fenômeno como um paradoxo do crédito: embora o crédito esteja mais acessível em volume, o estresse financeiro das famílias aumenta devido à qualidade do crédito disponível para os mais vulneráveis.
Fatores que agravam o quadro
A Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (PEIC) de março de 2026 apontou que 80,4% das famílias tinham alguma dívida, recorde histórico da série. A digitalização da economia também tem introduzido gastos recorrentes pouco percebidos no orçamento — como assinaturas, aplicativos, delivery e apostas online — que, cobrados automaticamente, acabam alimentando o saldo do cartão e migrando para modalidades de custo elevado.
Inadimplência, renegociação e reincidência
Segundo a Confederação Nacional do Comércio (CNC), a inadimplência estabilizou em 29,6% das famílias em março de 2026, com tempo médio de atraso de 65,1 dias — o maior desde dezembro de 2024. Fora do sistema bancário, a Serasa registrou mais de 83 milhões de CPFs negativados, com valor médio de dívida de R$ 6.814 por pessoa.
Imagem: Priscila Zambotto/Gettyimages
Programas de renegociação, como o Desenrola Brasil 2.0, já registraram mais de 1,4 milhão de operações e R$ 10 bilhões negociados. Contudo, o índice de reincidência é alto: 86% das pessoas que entram em inadimplência haviam sido negativadas nos 12 meses anteriores, o que indica que renegociações sem mudanças nas condições de crédito tendem a ser paliativas.
Projeção e orientações práticas
A CNC projeta que o endividamento das famílias deverá seguir em alta ao longo do primeiro semestre de 2026, até que os efeitos da flexibilização da política monetária cheguem ao consumidor. Entre as orientações mencionadas para quem busca organizar as finanças estão identificar o montante e o custo das dívidas, priorizar a redução do crédito mais caro (rotativo, cheque especial e crédito pessoal sem garantia) e reconhecer que a disponibilidade de crédito barato tende a chegar mais lentamente ao consumidor do que os cortes da Selic.
Os dados de 2026 evidenciam um mercado de crédito que distribui de forma desigual acesso e custo, com impacto maior sobre famílias de menor renda.
Com informações de Forbes

Gudyê GR6 é editor-chefe e especialista em tendências musicais e entretenimento na GR6, a maior produtora de funk do Brasil. Com anos de experiência no mercado fonográfico, Gudyê lidera a equipe de conteúdo trazendo as últimas notícias sobre música, cultura urbana. Autor do Post: Gudyê GR6