Luce: o elétrico da Ferrari que virou alvo de memes e fez ações despencarem

Apresentado em Roma, o primeiro modelo totalmente elétrico da marca dividiu fãs, atraiu críticas públicas e abriu uma crise de imagem — Transmissão: Band

Em poucas horas, o Luce deixou de ser apenas mais um lançamento para se transformar em problema corporativo. A Ferrari mostrou em Roma seu primeiro carro elétrico de quatro portas, com preço inicial de 550 mil euros, anunciou a pré-venda e viu uma reação imediata nas redes: memes, comparações impiedosas e uma perda de valor no mercado acionário.

Tradição x mudança: por que a reação foi tão intensa

O divisor de águas começou no visual. A Ferrari recorreu à LoveFrom, estúdio criado por Jony Ive e Marc Newson, e o resultado gerou divisão interna. Enquanto especialistas elogiaram engenharia, acabamento interno e desempenho, muitos entusiastas reprovaram o exterior mais suave do que o esperado para uma marca que construiu identidade no ronco e nas linhas agressivas.

Nas timelines, o Luce foi comparado a modelos muito mais baratos e virou motivo de piada. Um meme recorrente mostrava o carro com as rodas para cima e um cabo de iPhone preso ao fundo, símbolo do choque entre a estética tradicional e a nova linguagem dos veículos elétricos.

As críticas ultrapassaram o universo dos fãs. Figuras públicas da Itália — do ex-presidente da empresa à cenários políticos — soltaram comentários ríspidos sobre o projeto, alimentando uma narrativa de que a Ferrari estaria arriscando sua herança. No mercado, o impacto foi palpável: as ações caíram cerca de 8% logo após o lançamento e já acumularam um recuo muito mais amplo desde o último trimestre.

Internamente, a direção da marca sustenta que o Luce é um momento decisivo na trajetória da companhia. O CEO destacou interesse comercial, inclusive de novos perfis de cliente. Ainda assim, analistas apontam cautela: a Ferrari revisou metas de eletrificação — prevê agora que 20% da linha em 2030 seja totalmente elétrica, ante 40% projetado anteriormente — e mantém híbridos como peça central do portfólio.

Imagem: Divulgação

O cenário global também pesa. Outras fabricantes de luxo têm adiado ou reduzido ambições elétricas, e o segmento high-end registra lentidão. Para a Ferrari, o desafio é duplo: avançar na tecnologia e, ao mesmo tempo, convencer um público que se sente proprietário de uma tradição quase sagrada.

O Luce colocou em evidência o risco estratégico e a complexidade de mudar uma marca ícone sem perder sua legião de fãs. A história está apenas começando — nas ruas, nas redes e na Bolsa — e a resposta do mercado e dos consumidores nas próximas semanas deve dizer se a Ferrari conseguiu transformar seu momento de virada em vantagem ou em erro histórico.