Uma startup finlandesa chamada Donut Lab apresentou na CES 2026 uma bateria de estado sólido que, segundo a empresa, entrega densidade energética de 400 Wh/kg, recarga completa em cerca de cinco minutos e vida útil de até 100 mil ciclos. O anúncio provocou reações imediatas na indústria, que variaram entre ceticismo e entusiasmo, e suscitou exames independentes sobre a validade das alegações.

Parte das afirmações da Donut Lab foi submetida a ensaios pelo Centro de Pesquisa Técnica da Finlândia (VTT). Em células de menor escala, os testes registraram velocidades de recarga próximas às anunciadas, mas ainda não foram suficientes para provar a viabilidade da tecnologia em aplicações reais, como veículos de produção.

O que foi prometido e por quem

Em sua apresentação na CES, o CEO Marko Lehtimäki disse que a Donut Lab considera as baterias de estado sólido prontas para uso em veículos OEM “agora, hoje”. A proposta da empresa reúne três características consideradas difíceis de alcançar simultaneamente: elevada densidade energética (400 Wh/kg), recarga muito rápida (≈5 minutos) e durabilidade excepcional (até 100 mil ciclos).

Contexto da evolução das baterias

Nos últimos anos, as baterias para carros elétricos deixaram de ser apenas um componente caro para virar foco central de inovação. Segundo Fabio Delatore, professor do Instituto Mauá de Tecnologia, avanços em químicas como NCM e LFP, melhorias na eletrônica embarcada e sistemas térmicos e a adoção de arquiteturas de maior tensão — como sistemas de 800 volts — impulsionaram recargas mais rápidas e maior eficiência.

Outra mudança citada pelos especialistas é o uso de ferramentas de inteligência artificial na pesquisa de materiais. Conforme Roberto Pena Spinelli, físico pela USP, modelos de machine learning ajudam a selecionar combinações químicas promissoras antes dos testes experimentais, acelerando o desenvolvimento.

Como funcionam e o que muda com estado sólido

Em baterias de íon de lítio convencionais, íons se movem por um eletrólito líquido inflamável, que limita segurança e densidade energética. Atualmente, a faixa típica é de cerca de 200 a 300 Wh/kg, muito abaixo dos ~12.000 Wh/kg da gasolina, segundo especialistas citados.

As baterias de estado sólido substituem o eletrólito líquido por um material sólido, reduzindo risco de incêndio e permitindo, em tese, maior densidade energética e uso de lítio metálico no eletrodo. Porém, a mobilidade iônica no sólido é mais difícil e interfaces entre componentes sólidos podem aumentar resistência interna, apontam os pesquisadores.

Desafios práticos e infraestrutura

Especialistas ressaltam obstáculos além da célula em si. Delatore destaca que recarregar uma bateria em cinco minutos requer infraestrutura de recarga complexa e controle térmico rigoroso. Fernando Augusto Pinto, professor da UFRJ, exemplifica: um carro com cerca de 50 kWh precisaria de potência na ordem de 500 kW para recarga completa em cinco minutos — nível que está muito além do que os carregadores rápidos comuns oferecem.

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Além do cabeamento, controladores de alta capacidade e fornecimento de energia, a produção em larga escala de células sólidas exige processos e materiais que ainda mantêm os custos elevados.

Validação, críticas e cenário de mercado

A validação parcial pelo VTT é vista como relevante, mas insuficiente para encerrar debates sobre a veracidade total das especificações. Após o anúncio, fabricantes chineses chegaram a levantar acusações de fraude, enquanto especialistas ponderam que, mesmo que nem todos os números sejam alcançados, avanços podem acelerar gerações futuras de baterias.

O caso ilustra também uma tendência: startups têm mais liberdade para apostar em soluções radicais, enquanto grandes empresas — como Toyota, CATL, Samsung SDI e BYD — investem pesado quando a tecnologia mostra maturidade para escala. No curto prazo, a expectativa de especialistas é de adoção gradual, com aplicações de alto desempenho podendo receber a novidade antes dos veículos de uso diário.

Ao mesmo tempo em que a Donut Lab promete um salto tecnológico, persistem dúvidas sobre escalabilidade, custos industriais e exigências de infraestrutura necessárias para transformar essas promessas em produtos comerciais.

Com informações de Olhardigital