A Engeform Gestão de Recursos e a Galapagos Capital concluíram a captação de R$ 190 milhões para um fundo voltado a projetos de infraestrutura social, segundo anúncio feito na sexta-feira (31), com cerimônia de toque do sino na B3. A iniciativa marca a entrada de contratos públicos estruturados — como escolas, hospitais e moradias — na disputa por recursos do mercado de capitais.

Constituído como Fundo de Investimento em Participações em Infraestrutura (FIP-IE), o veículo reúne cerca de 1.000 cotistas e já incorpora 50% da PPP das Escolas de São Paulo, por meio de uma sociedade com a Kinea. O mandato prevê aplicações em concessões das áreas de educação, saúde e habitação.

Como o retorno é gerado

Os gestores visam entregar retorno de IPCA + 15% ao ano ao longo de um ciclo de 15 anos. A estratégia funda-se na valorização da concessão: o fundo ingressa na fase de construção, quando o risco e o custo do ativo são mais baixos; com a conclusão das obras e o início da operação, o fluxo de caixa se estabiliza e a participação tende a valorizar-se, possibilitando saída por venda do ativo amadurecido e reciclagem do capital.

O caso da PPP das Escolas de São Paulo exemplifica o modelo: são 17 unidades em 14 municípios, das quais oito já foram entregues e começam a receber alunos neste semestre, e outras seis tiveram conclusão antecipada em relação ao cronograma original. Cada escola entregue aciona o pagamento previsto em contrato, e cada antecipação gera fluxo de caixa antes do previsto.

Critérios de seleção e riscos

Os gestores afirmam que o fundo privilegia contratos que reduzam risco, não necessariamente os maiores ou mais conhecidos. Thomas Averbuck, sócio e diretor executivo de Private Equity da Galapagos Capital, destaca que ativos como escolas têm menor complexidade operacional e receitas mais previsíveis do que obras subterrâneas ou projetos muito complexos.

Luciana Improta, diretora de Gestão da Engeform, relatou que a gestora avaliou uma PPP municipal no Sul do País, mas optou por não participar porque o edital não oferecia garantias suficientes para proteger o fluxo financeiro da concessão, evidenciando que mérito social não substitui segurança jurídica para esse tipo de investidor.

Vantagem da integração entre gestão e construção

O grupo integra a gestão de recursos e a execução das obras: a Engeform Gestão administra os investimentos e a Engeform Engenharia realiza a construção. Na PPP das Escolas, essa combinação permitiu competir com um BDI mais baixo, reduzindo margens na construção para aumentar a atratividade do projeto. O grupo, assim, captura valor inicialmente na obra e depois na valorização do ativo concedido, além de mitigar o risco de diferença entre custo projetado e custo efetivo da execução.

Expansão do mercado

O lançamento do FIP-IE ocorre em um momento de crescimento das concessões no Brasil. Em 2025, a B3 realizou 75 leilões de concessões e PPPs, movimentando R$ 243,8 bilhões, acima dos 64 leilões e R$ 180 bilhões de 2024. Só no primeiro trimestre deste ano foram 18 leilões somando R$ 42,4 bilhões, alta superior a 40% sobre o mesmo período do ano anterior.

Engeform e Galapagos captam R$ 190 milhões para fundo de infraestrutura social

Imagem: Portal IN

Na avaliação dos gestores, a isenção tributária prevista para pessoas físicas é outro fator que amplia o interesse pelo veículo. A Galapagos administra mais de R$ 40 bilhões em ativos, enquanto a Engeform Gestão já supera R$ 1 bilhão sob gestão.

Próximos passos

Segundo Luciana Improta, o fundo tem capacidade para investir em até mais três projetos, com prioridade para aquisições que garantam posições de controle ou participação com governança relevante. A próxima operação em análise envolve uma PPP habitacional. Além dos novos leilões, o fundo também observa oportunidades no mercado secundário, adquirindo participações de concessionárias que queiram vender ativos já contratados.

Exemplo no Ceará

O comportamento dos investidores já se reflete em grandes processos: em junho, a Cagece levou à B3 a maior PPP de esgotamento sanitário já estruturada no país — cinco blocos, 127 municípios e cerca de R$ 7 bilhões previstos em investimentos ao longo de 28 anos —, mas apenas um bloco recebeu proposta e os outros quatro ficaram desertos. A empresa anunciou que retomará o processo com nova modelagem.

O episódio evidencia que, hoje, o mercado prioriza a qualidade das garantias e da estrutura contratual. A remuneração por contraprestações fixas, como na PPP das Escolas de São Paulo, contrasta com modelos vinculados à entrega efetiva de serviços, como na dessalinização, atraindo perfis distintos de investidores conforme a previsibilidade do fluxo financeiro.

O fundo reforça a transformação das concessões: passam de contratos administrativos para ativos negociáveis no mercado de capitais, e a capacidade de estruturar contratos com garantias e governança robustas torna‑se diferencial para atrair capital privado.

Com informações de Portalin