Nanopartículas de cromo tóxico pairaram sobre Los Angeles por meses após incêndios

Pesquisa da UC Davis encontrou cromo hexavalente em partículas menores que 56 nm — risco atingiu milhões de moradores

Dois meses depois das grandes queimadas em Altadena e Pacific Palisades, o ar ainda carregava um metal ligado ao câncer. Pesquisadores da Universidade da Califórnia, Davis, detectaram formas altamente tóxicas de cromo em partículas ultrafinas durante operações de limpeza.

Como a contaminação foi identificada

Equipes da UC Davis montaram instrumentos de amostragem em uma caminhonete elétrica e recolheram poeira enquanto destroços eram removidos, em março. A análise, coordenada por Michael J. Kleeman e publicada em Communications Earth & Environment, revelou cromo na forma hexavalente concentrado em partículas menores que 56 nanômetros — tamanho suficiente para ultrapassar barreiras celulares.

O que torna o cromo hexavalente perigoso

Entre as formas químicas do cromo, a versão hexavalente é a que mais preocupa: associada a câncer e danos celulares em exposições prolongadas. No estudo, entre 60% e 97% do cromo coletado em março estava nessa forma tóxica. As concentrações médias medidas no ar chegaram a 13,7 ng/m³ — números abaixo do limite ocupacional, mas mais de cem vezes superiores a parâmetros de triagem usados pela EPA para ambientes internos.

Partículas menores que as registradas em incêndios anteriores

Pesquisas anteriores sobre cinzas e fumaça identificaram partículas de cromo na faixa de 90 a 270 nm. O achado da UC Davis mostrou nanopartículas ainda menores, uma escala inédita para ar externo após incêndios florestais, o que muda a equação de risco porque partículas diminutas tendem a penetrar mais profundamente no organismo.

Possíveis fontes: retardantes e materiais das estruturas

Os autores descartam níveis naturalmente elevados de cromo no solo das áreas vistoriadas. Entre as hipóteses avaliadas está o uso intensivo de retardantes aéreos — produtos lançados em grande volume durante o combate às chamas. Registros apontam que mais de 528 mil galões (aproximadamente 2 milhões de litros) foram aplicados na região, e testes independentes identificaram cromo em uma das variantes do produto. Ainda assim, não há confirmação definitiva de que esses compostos gerem nanopartículas ao serem expostos ao fogo.

Até onde a nuvem se espalhou e quem pode ter sido afetado

Modelos atmosféricos 3D usados no estudo indicam que a pluma de partículas poderia deslocar-se por 10 a 15 quilômetros a partir das zonas de limpeza. As 100 áreas postais com maior projeção de exposição somam cerca de 3,3 milhões de pessoas, especialmente ao sudeste do perímetro afetado em Pacific Palisades.

Imagem: Divulgação

Redução da toxicidade com o passar dos meses

Os dados também mostram uma tendência de queda na forma mais perigosa do metal. Em maio, a fração hexavalente já estava substancialmente menor e, em setembro, quase desapareceu das medições — embora o cromo total tenha continuado presente no ar por mais tempo.

Recomendações e medidas em vigor

Os autores enfatizam cautela para quem vive próximo às áreas de limpeza e sugerem redução da exposição enquanto atividades de remoção de destroços estiverem em curso. A legislação californiana exige respiradores aprovados para trabalhadores envolvidos na limpeza, medida vista como essencial diante da capacidade das nanopartículas de atravessar membranas celulares e circular pelo corpo.

O que o estudo deixa em aberto

O estudo da UC Davis coloca a contaminação atmosférica por metais finos no centro do debate sobre segurança pós-incêndio, lembrando que efeitos persistentes podem surgir muito depois das chamas serem apagadas.