Em 1962, um surto de risos incontroláveis teve início em um internato feminino na vila de Kashasha, na antiga Tanganica — atual Tanzânia — e evoluiu para um fenômeno coletivo que afetou cerca de mil pessoas ao longo de aproximadamente 18 meses. O episódio levou ao fechamento temporário de pelo menos 14 escolas e mobilizou pesquisadores interessados em doenças psicogênicas em massa.

O que aconteceu

Tudo começou quando algumas alunas passaram a apresentar crises de riso que não estavam ligadas a alegria. As gargalhadas se espalharam rapidamente entre estudantes, assustando professores, familiares e autoridades locais. Em diversos casos, os episódios alternavam riso intenso com choro, ansiedade, agitação e dificuldades de concentração; alguns duravam horas e outros persistiam por dias seguidos.

Quem foi afetado e consequências

O surto ocorreu principalmente entre adolescentes e jovens mulheres. Estima-se que cerca de mil pessoas apresentaram sintomas ao longo do período em que o fenômeno se propagou, e ao menos 14 escolas interromperam as atividades por conta da situação. Além do riso descontrolado, relatou-se inquietação, correria sem direção e episódios ocasionais de agressividade.

Diagnóstico e explicações

Exames médicos não identificaram causa orgânica para os sintomas. Especialistas classificaram o evento como uma doença psicogênica coletiva, também descrita como doença sociogênica coletiva — um quadro em que grupos sob forte estresse desenvolvem manifestações físicas ou emocionais sem explicação fisiológica aparente.

Décadas depois, o pesquisador Christian Hempelmann estudou o caso e concluiu que o ambiente de pressão enfrentado pelas estudantes foi determinante para o surto. Naquela época, a Tanganica havia conquistado recentemente a independência do domínio britânico e vivia um período de transformações políticas e sociais. Hempelmann apontou que as cobranças rígidas em escolas administradas por britânicos, somadas à insegurança sobre o futuro político e econômico, teriam contribuído para o surgimento do fenômeno.

Contexto e ocorrências semelhantes

Casos parecidos continuam a ser relatados em regiões marcadas por tensão contínua. Publicações citam surtos com sintomas como tontura, náusea, dificuldade respiratória ou tremores em lugares como Kosovo, Afeganistão e África do Sul. Hempelmann também recordou um episódio em Lafayette, Indiana (EUA), onde funcionários de um departamento passaram a sofrer problemas respiratórios recorrentes e o prédio chegou a ser fechado várias vezes; exames não indicaram contaminação e a hipótese atribuída foi reação coletiva ao estresse no ambiente de trabalho.

Imagem: Imagem gerada por IA/Gemini

Pesquisa sobre riso e saúde

O episódio da Tanganica contribuiu para o interesse científico sobre os efeitos do riso no corpo e na mente. A gelotologia é a área dedicada a esse tema. Nos últimos anos, práticas como terapia do riso, meditação do riso e ioga do riso ganharam espaço, com estudos indicando que o riso pode reduzir hormônios relacionados à tensão e aumentar a produção de endorfinas. Mesmo assim, especialistas alertam que o riso, por si só, não resolve problemas emocionais profundos.

Para pesquisadores que analisaram o surto de 1962, as gargalhadas foram uma manifestação visível do sofrimento psicológico de centenas de pessoas em um período marcado por pressões sociais, medo e incertezas.

Com informações de Olhardigital