Ao abrir os olhos, muitas pessoas conferem uma sequência de aplicativos — Instagram, TikTok, X, YouTube, WhatsApp, Reddit, Snapchat — além de portais de notícias, buscadores e assistentes de IA, tudo isso antes mesmo de sair da cama ou tomar o café da manhã. Esse gesto cotidiano evidencia a influência crescente dos conteúdos digitais na formação das opiniões individuais.

Dados da DataReportal apontam que, ao final de 2025, havia cerca de 185 milhões de pessoas com acesso à internet no Brasil. Em outubro daquele ano, o país contabilizava 150 milhões de identidades em redes sociais, cifra que representa mais de 70% da população total.

A pesquisa TIC Domicílios 2025, que investiga o uso das tecnologias de informação e comunicação nos domicílios brasileiros, indica que a IA generativa já integra a rotina de 32% dos usuários de internet no país — cerca de 50 milhões de pessoas com 10 anos ou mais.

Diferentemente de influenciadores, jornalistas ou colunistas, que exibem rosto, trajetória ou assinatura, a IA generativa opera sem biografia aparente, sem posicionamento explícito e sem emoção visível, oferecendo acesso facilitado à produção e interpretação de conteúdos.

Relatório do Reuters Institute mostra que o uso semanal de chatbots de IA para acessar notícias subiu globalmente de 7% para 10% em 2026, alcançando 13% no Brasil. Segundo a pesquisadora Amy Ross Arguedas, esses sistemas são empregados não só para acessar notícias, mas também para questionar, resumir, simplificar e avaliar informações.

Entre quem usa chatbots para notícias, 42% afirmam recorrer a eles para fazer perguntas de acompanhamento, 35% para obter notícias recentes, 34% para resumos, 30% para tornar as notícias mais compreensíveis e 33% para checar a confiabilidade de uma fonte. As motivações apontadas incluem buscar maior profundidade ou explicação (42%) e obter informação com mais rapidez (39%).

Estamos terceirizando nossa opinião para o algoritmo?

Imagem: Divulgação

Embora não seja possível e nem desejável frear o avanço tecnológico ou negar os benefícios das IAs generativas para ciência, pesquisa, produção, desenvolvimento e inovação, a questão que se impõe é até que ponto as pessoas verificam as respostas antes de aceitá-las e se reconhecem que a IA pode transformar informação em matéria-prima de respostas cuja origem passa despercebida.

O risco, portanto, vai além de falhas das máquinas: está na naturalização de uma sociedade que delega a terceiros — neste caso, algoritmos — a dúvida, a interpretação e, gradualmente, a capacidade de formar opinião.

Com informações de Olhardigital