Um estudo baseado em fósseis indica que o gado presente hoje no Pampa brasileiro não consegue ocupar plenamente os papéis ecológicos deixados pela megafauna extinta há cerca de 12 mil anos, o que reduziu a diversidade e alterou o funcionamento do bioma.

Quem fez e como foi a pesquisa

A pesquisa, publicada na revista Functional Ecology e divulgada pelo Jornal da USP, foi assinada por pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP), incluindo a pós-doutoranda Thayara Carrasco, do Instituto de Biociências (IB) da USP, e colaboradores da Swansea University, no Reino Unido. O trabalho comparou três momentos históricos do Pampa: o Pleistoceno (antes da extinção da megafauna), o Holoceno (após esse evento) e o período atual, que incorpora espécies introduzidas por humanos.

O que os fósseis mostraram

Os cientistas utilizaram restos fósseis para reconstruir características das espécies antigas, como tamanho corporal, dieta e tipo de habitat. Esses atributos permitiram inferir quais funções ecológicas foram perdidas com o desaparecimento das grandes espécies. Segundo os autores, a extinção ocorrida na transição entre o Pleistoceno e o Holoceno provocou redução de 30% na diversidade de mamíferos terrestres e queda de 40% na diversidade funcional do Pampa brasileiro.

Espécies introduzidas e funções recuperadas

Algumas espécies atuais desempenham papéis semelhantes aos de animais extintos, mas não conseguem recriar toda a variedade funcional anterior. Entre as espécies introduzidas citadas no estudo estão o cervo-axis (Axis axis) e o cavalo doméstico (Equus ferus), além de animais domésticos que ocupam parcialmente funções deixadas por cervídeos e cavalos extintos. A presença dessas espécies aumentou em 12% a riqueza funcional medida pelos pesquisadores, mas a maior parte delas apresenta funções semelhantes entre si, o que limita a recuperação completa da diversidade perdida.

O estudo também observa que, embora o gado represente um impacto novo no ambiente — impacto ausente no Pleistoceno — ele ainda é menos prejudicial do que a conversão para monoculturas, conforme apontado por um dos autores do artigo, Pedro Godoy, do Departamento de Zoologia do IB.

Estudo mostra que gado não substitui funções ecológicas deixadas pela megafauna do Pampa

Imagem: Divulgação

Contexto histórico e conservação

No Pleistoceno, entre 2,6 milhões e 11,7 mil anos atrás, o Pampa era habitado por animais como preguiças gigantes, gliptodontes e mastodontes; todos os mamíferos com mais de 500 quilos desapareceram nessa transição. Thayara Carrasco destaca que os fósseis permitem inferir comportamentos e preferências alimentares — por exemplo, se um animal era terrestre, se cavava tocas ou em que substrato atuava.

Atualmente, o Pampa é o bioma brasileiro menos preservado e protegido: 47,3% da vegetação nativa permanecem, e apenas 3% da área está em unidades de conservação. Os pesquisadores esperam que o trabalho oriente políticas públicas voltadas à proteção da fauna e do bioma, reforçando que conhecer a história das espécies extintas pode ser essencial para conservar os ecossistemas atuais.

Com informações de Olhardigital