Empresas que produzem módulos construtivos em fábricas estão remodelando parte da construção civil brasileira ao reduzir a dependência de pedreiros e aumentar a produtividade, mas ainda representam uma parcela pequena do setor. Enquanto em canteiros tradicionais muitos trabalhadores mais velhos erguem paredes com métodos manuais, unidades industriais, como as de Santo André (SP) e Tubarão (SC), montam paredes completas e cabladas em ambiente controlado por jovens operários.
Segundo David Fratel, diretor do Sinduscon-SP, cerca de 70% das obras no país continuam usando processos artesanais, com desperdício de material estimado em pelo menos 30%. Em projetos convencionais, a mão de obra pode responder por mais da metade do custo da obra, cenário que aumenta o interesse por soluções industrializadas diante da escassez de pedreiros.
Na Brasil ao Cubo, fundada em 2016 e com fábrica em Tubarão (SC), módulos de 55 metros quadrados são produzidos em uma linha com dez estações, cada uma com ordens de produção diárias, instruções escritas e tempos cronometrados. Funções como pintura, assentamento de cerâmica e instalação elétrica são sequenciadas: um novo funcionário explica-se capaz de aprender qualquer etapa em cerca de 15 dias. A companhia afirma ter reduzido o custo por metro quadrado de R$ 9 mil para menos de R$ 3 mil nos últimos três anos.
A Brasil ao Cubo recebeu aportes de peso a partir de 2020: a Gerdau investiu R$ 60 milhões e passou a deter 44% do capital; a Dexco aportou R$ 74 milhões em 2022 e tem 19%; Ricardo Mateus, fundador, possui 19%. A empresa já entregou obras em 17 estados, entre elas um bloco de quatro andares para o Hospital Albert Einstein, montado em 150 dias, e 23 edifícios para o Projeto Cerrado da Suzano. A companhia fatura cerca de R$ 1 bilhão por ano e registra lucro desde 2020.
A Steel Corp, com sede em Santo André e com Roberto Justus como CEO e Daniel Gispert como presidente, segue lógica similar com o uso do light steel frame. Constituída em 2023, a empresa recebeu mais de R$ 300 milhões em investimentos e inaugurou duas fábricas em 2025, em Cajamar (SP) e Aparecida de Goiânia (GO). Suas linhas produzem paredes prontas a partir de bobinas de aço, aplicando perfis estruturais, placas de cimento, isolamento térmico e fiação embutida; a capacidade anunciada é de 37 casas por dia na fábrica, com cada unidade montável no canteiro em 24 horas.
Gispert informa que, em dois anos, o consumo de aço foi reduzido de 55 para 17 quilos por metro quadrado sem perda de resistência, e que a mão de obra representa cerca de 15% do custo total na solução. Entre os projetos da empresa estão o estádio do Red Bull Bragantino, a sede da Blau Farmacêutica em Cotia, oito escolas em parcerias público-privadas e 31 creches em Caxias do Sul. A previsão de faturamento para 2026 é de R$ 600 milhões.
Barreiras ao crescimento
Apesar do desempenho dessas construtechs, a industrialização enfrenta três obstáculos que limitam a adoção em larga escala. Primeiro, o capital necessário: Brasil ao Cubo investiu mais de R$ 130 milhões em fábrica e planeja aplicar outros R$ 150 milhões em uma planta robotizada; a Steel Corp já captou mais de R$ 300 milhões. Muitas construtoras, em sua maioria familiares, não dispõem desses recursos.
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Segundo, a regulação municipal e a necessidade de normas técnicas. Cada prefeitura costuma impor regras próprias, o que dificulta padronização e escala. A técnica de light steel frame só teve norma da ABNT em 2020, e, antes disso, bancos não financiavam obras nesse sistema. A Brasil ao Cubo ainda passa por etapas de validação técnica para competir formalmente em segmentos como o habitacional popular.
Terceiro, a formação profissional e o desenho dos projetos. Cursos de engenharia e arquitetura no país raramente incluem métodos industrializados, o que obriga adaptações quando projetos concebidos para alvenaria chegam às fábricas. Em resposta, a Steel Corp criou a Steel Academy com oito cursos para reciclar pedreiros ao trabalho em linha de montagem.
Algumas incorporadoras já demonstram interesse: MRV, Cury e Direcional visitaram a Brasil ao Cubo. Ainda assim, o setor age com cautela, temendo que a complexidade operacional e margens apertadas possam gerar perdas — caso da Alea, subsidiária da Tenda, que acumulou mais de R$ 500 milhões em prejuízos em cinco anos e enfrenta pressão para encerrar a operação.
Os executivos entrevistados estimam que a industrialização crescerá ao longo dos próximos anos. Para os defensores do modelo, a adoção ampliada é uma questão de tempo, condicionada à superação das barreiras de capital, normativas e formação profissional.
Com informações de Investnews

Gudyê GR6 é editor-chefe e especialista em tendências musicais e entretenimento na GR6, a maior produtora de funk do Brasil. Com anos de experiência no mercado fonográfico, Gudyê lidera a equipe de conteúdo trazendo as últimas notícias sobre música, cultura urbana. Autor do Post: Gudyê GR6