Funk ultrapassa sertanejo e vira maioria no Top 10 do Spotify Brasil

O espaço historicamente ocupado pelo sertanejo nas paradas do Spotify Brasil vem sendo conquistado pelo funk. Desde o fim de 2025, o ritmo passou a ocupar a maior parte do Top 10 da plataforma e, em 2026, já figura como o gênero predominante nas posições mais ouvidas.

Momento decisivo e recordes

A virada ocorreu em outubro de 2025, quando a faixa “Posso até não te dar flores”, assinada por DJ Japa NK, DJ Davi Dogdog, MC Ryan SP, MC Jacaré e MC Meno K, superou “P do Pecado”, do Menos é Mais com Simone Mendes. O pagonejo havia permanecido 105 dias não consecutivos na liderança do ranking, um recorde até então.

“Posso até não te dar flores” ultrapassou essa marca e acumulou 121 dias não consecutivos no topo. A canção impulsionou outras faixas de DJ Japa NK para o Top 10: o artista tem garantido ao menos três posições no ranking nos últimos meses. Além dele, nomes como DJ Gu, MC Jacaré e DJ Oreia também passaram a aparecer entre as mais tocadas ao longo de 2026. Entre os poucos sertanejos que resistem no Top 10 estão Panda e Murilo Huff.

Por que o funk cresceu nas plataformas

Um fator central para o avanço do funk é a viralização em redes como TikTok e Instagram Reels. Muitas músicas que estouram nessas redes não chegam a ter grande exposição no rádio, mas são buscadas nas plataformas de streaming para serem ouvidas inteiras em festas, treinos e no cotidiano do público.

O formato curto das faixas favorece esse consumo acelerado: a maioria dos funks tem pouco mais de dois minutos. Há exceções, como “Relíquia do 2T”, com 5:06, que atualmente ocupa a segunda colocação do ranking. Curiosamente, as duas faixas sertanejas que permanecem no Top 10 também são relativamente curtas — “Eu te seguro”, do Panda, tem 2:28, e “Deixa eu”, de Murilo Huff, 2:38.

Colaborações com múltiplos artistas também ampliam o alcance: “Posso até não te dar flores” reúne cinco nomes, o que significa que os ouvintes mensais de cada um se somam — cerca de 85 milhões de ouvintes mensais no total, segundo as contas apresentadas. Para efeito de comparação, o sertanejo Panda, que estourou em setembro de 2025 e segue no ranking, tem 19 milhões de ouvintes mensais.

Produção acessível e diversidade regional

Outra característica da cena funk é a produção simples e ágil: não é incomum que um hit seja gravado e editado em um celular, o que facilita a produção em larga escala e a renovação constante de novidades. O gênero deixou de ser monopólio do Rio de Janeiro e ampliou sua variedade com subgêneros — proibidão, melody, MTG de Belo Horizonte, brega-funk do Recife, eletrofunk do Sul e o mandelão de São Paulo — que contribuíram para a expansão nacional da cena.

Grande parte dos funks que dominaram as plataformas recentemente foram produzidos em São Paulo ou por artistas paulistas, como MC Ryan SP, DJ Japa NK e DJ Davi DogDog. Considerando que São Paulo é o maior mercado de streaming do país, o sucesso no Estado costuma impulsionar uma faixa para o Top 50 e o algoritmo da plataforma tende a recomendar essas músicas para outras regiões.

Sertanejo segue relevante, com padrão diferente

Apesar da ascensão do funk, o sertanejo continua ativo e apresenta estabilidade nas plataformas. Mesmo em 2025, o hit mais ouvido do ano no Spotify ainda foi sertanejo, e artistas do gênero mantêm presença no Top 50 com canções de longa duração no catálogo. Exemplos são Henrique e Juliano, cujo lançamento “Última saudade” (de 2024) figura atualmente na 19ª posição do ranking, sustentando uma estratégia de cauda longa com fãs fiéis.

O padrão de consumo difere entre os gêneros: hits de funk costumam atingir um pico de audiência rápido e depois caem para dar lugar a novos virais, enquanto faixas sertanejas mostram maior longevidade e um fluxo mais contínuo de ouvintes ao longo do tempo.