Um novo ciclo de debate sobre o papel da inteligência artificial (IA) nos investimentos ganhou força após o lançamento de uma ferramenta que foi apontada como responsável por uma queda brusca nas ações de grandes gestoras de patrimônio, como Charles Schwab, Raymond James Financial e LPL Financial. A partir desse episódio, profissionais do mercado, executivos de tecnologia e especialistas passaram a discutir até que ponto IAs podem substituir ou aprimorar o trabalho de assessores e consultores financeiros.

Hazel e a reação do mercado

A tecnologia que movimentou o mercado chama-se Hazel e foi desenvolvida pela Altruist. Segundo a empresa, a ferramenta é voltada ao planejamento tributário: lê documentos como declaração de imposto de renda, holerites, extratos, anotações de reuniões e e‑mails para ajudar o assessor a montar estratégias personalizadas e entregar um plano ao cliente. A própria Altruist afirma que não pretende eliminar o profissional humano, mas fornecer uma ferramenta para aumentar a eficiência dos consultores.

Jason Wenk, CEO da Altruist, disse ao site Barron’s que a função tributária é apenas uma das atualizações previstas, com outras funcionalidades focadas em etapas distintas do planejamento financeiro. O mercado interpretou o lançamento como um sinal de que modelos de IA específicos podem avançar de funções de backoffice para áreas centrais da assessoria.

Que tipo de IA está em jogo?

Especialistas destacam que “IA” é um termo amplo. Para Diogo Cortiz, professor da PUC e especialista em IA, o guarda-chuva inclui desde modelos pequenos para análises quantitativas até chatbots de uso geral. No caso que gerou o alerta, o impacto foi causado por um modelo treinado para uma tarefa específica.

Guilherme Assis, CEO da Gorila, afirma que os modelos mais recentes têm melhorado rapidamente e que plataformas já lançam ferramentas conversacionais que ajudam gestores a identificar notícias que afetaram carteiras e a fazer análises históricas com dados da plataforma. Para ele, a tecnologia já está presente e cabe agora sua difusão.

Ferramenta para ampliar produtividade, não substituição total

Profissionais consultados pela reportagem reforçam que a tecnologia tende a transformar o trabalho, não necessariamente a anulá‑lo. Renato Breia, sócio fundador da Nord Investimentos, lembra que a tecnologia já mudou processos nos últimos 20 anos e que, com IA, o objetivo é criar “super consultores” que gastem menos tempo em tarefas manuais e mais em contato com clientes.

Felipe Paiva, diretor de Relacionamento com Clientes, Educação e Pessoa Física da B3, e executivos de instituições como XP destacam ganhos em análise de dados, produtividade e personalização. Rosi Ferruzzi, planejadora financeira CFP, resume: a IA dá mais tempo para o contato com o cliente.

Impacto geracional e transferência de riqueza

Outro fator citado é a transferência de riqueza entre gerações. Nas próximas duas décadas ocorrerá a maior transferência de patrimônio da história: US$ 84 trilhões deverão migrar dos Baby Boomers para os Millennials. Para Guilherme Assis, essa mudança pode favorecer soluções digitais e normalizar o uso de IAs em decisões de investimento, já que herdeiros tendem a ser mais confortáveis com apps, automações e agentes digitais.

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Limites da IA: contexto, empatia e julgamento

Embora IAs acelerem cálculos, consolidem dados e sugiram rebalanceamentos, o diferencial humano continua sendo o contexto, a confiança e a leitura comportamental. Gabriel Santos, head de arquitetura e dados da XP, afirma que o profissional é responsável por interpretar dados e transformar análises em recomendações alinhadas a objetivos individuais. Tatiana Guedes, gerente de produtos da InvestSmart, aponta que criação de confiança e leitura emocional permanecem tarefas humanas.

Diego Ramiro, presidente da Abai, observa que a tecnologia tende a eliminar funções muito específicas, como executar ordens, mas não substitui assessores que oferecem planejamento e atendimento completo. Paulo Paiva (B3) reforça que a IA criará um novo profissional, mais preparado e com informações em tempo real, mas que ainda precisa transmitir confiança ao investidor.

Cliente mais informado e respostas das próprias IAs

O uso de IA também traz mais informação para o investidor, mudando a dinâmica da conversa com o assessor. Raul Sena, fundador da AUVP, incentiva que clientes utilizem IA para gerar perguntas melhores, o que, segundo ele, melhora a qualidade do atendimento. Guilherme Assis compara o empoderamento do consumidor a levar um exame pré‑avaliado ao profissional: aumenta a transparência e eleva o nível do diálogo.

O Bora Investir pediu respostas a três modelos — ChatGPT (versão 5.2), Gemini e DeepSeek — sobre se IAs vão substituir assessores e consultores. As três ferramentas concordaram que a substituição total é improvável, mas que a transformação é inevitável. O ChatGPT afirmou que a tecnologia pode tornar o serviço mais barato e escalável, deslocando o diferencial humano para estratégia, interpretação de cenários, planejamento patrimonial, gestão comportamental e construção de confiança. O Gemini ressaltou que, em 2026, a IA já é imbatível em processamento de dados, mas ainda falha ao capturar fatores humanos complexos. O DeepSeek destacou que tarefas de análise massiva tendem a ser automatizadas, enquanto inteligência emocional e entendimento de contexto seguem como diferenciais humanos.

O debate permanece em aberto sobre quem serão os profissionais mais aptos a trabalhar ao lado dessas ferramentas, mas o consenso entre especialistas e entre as próprias IAs é de que a tecnologia vai transformar funções, ampliando capacidades, sem promover uma substituição total do papel humano na assessoria financeira.

Com informações de Borainvestir.b3