Cientistas identificaram microrganismos capazes de gerar oxigênio em ambiente de escuridão completa em cavidades líquidas abaixo do gelo na Groenlândia. A descoberta, descrita em estudo publicado na Nature, mostra que ecossistemas subglaciais isolados podem sustentar processos aeróbicos sem depender da fotossíntese.

O que foi encontrado e onde

Pesquisadores coletaram amostras em lagos formados sob camadas de gelo que permaneceram selados da atmosfera por milhares de anos. Nas profundezas onde a luz solar não alcança, foram detectadas comunidades microbianas com metabolismo capaz de liberar oxigênio por meio de reações químicas internas, mantendo atividade biológica mesmo em total ausência de fótons.

Como funciona o processo

De acordo com os autores do estudo, as bactérias empregam vias químicas que dissociam moléculas e promovem reações redox com minerais presentes nos sedimentos, produzindo O2 como subproduto. Esse mecanismo, descrito pelos pesquisadores como análogo a uma “bateria biológica”, opera de forma contínua e independente dos ciclos solares da superfície.

Características dos microrganismos

As análises mostraram organismos altamente especializados, com genomas que exibem mutações raras relacionadas ao manejo de compostos nitrogenados e à produção interna de oxigênio. Entre as propriedades observadas estão:

  • Autossustentação sem necessidade de energia solar direta;
  • Resistência a altas pressões e a temperaturas próximas ao ponto de congelamento;
  • Produção de oxigênio via vias enzimáticas ainda não totalmente descritas;
  • Interação estreita com minerais do leito subglacial.

Diferenças em relação à fotossíntese

Ao contrário da fotossíntese, que usa energia de fótons para quebrar moléculas de água, o processo detectado depende de quimiossíntese avançada: reações químicas entre compostos minerais e metabólitos microbianos que não exigem luz. O subproduto observado inclui oxigênio e nitritos, ao contrário da produção típica de oxigênio e glicose na fotossíntese.

Imagem: Divulgação

Implicações e próximos passos

A presença comprovada de oxigênio em ambientes escuros amplia as possibilidades de busca por vida em luas geladas do Sistema Solar, como Europa e Encélado, e pode levar agências como NASA e ESA a ajustar estratégias de detecção de bioassinaturas. Os pesquisadores planejam perfurar novos pontos na Groenlândia e também na Antártida para avaliar se o fenômeno é generalizado e investigar potenciais aplicações biotecnológicas desses microrganismos, além de monitorar como o derretimento das calotas influenciará esses ecossistemas isolados.

Com informações de Olhardigital