Letícia Pavim, de 26 anos, relata do Templo de Shaolin, na China, a experiência que a levou a inspirar outras mulheres a viajar sozinhas e a desconstruir estereótipos sobre destinos fora dos circuitos tradicionais dos Estados Unidos e da Europa. Formada em Relações Internacionais e criadora de conteúdo sobre viagens, Letícia já passou por mais de 40 países, com 27 viagens feita por conta própria, e estava em um treinamento intensivo de kung fu quando falou sobre sua trajetória.

Dados do Ministério do Turismo, em parceria com a Unesco, mostram que quatro em cada 10 brasileiras já viajaram sozinhas e que cerca de 31% repetem esse tipo de viagem com frequência. Ao mesmo tempo, 62% disseram ter deixado de viajar por motivos de segurança. A pesquisa, realizada em 2025 com 2.712 mulheres de todas as regiões do país, resultou no “Guia para Mulheres que Viajam Sozinhas”, com orientações e informações para aprimorar a segurança nesse segmento.

A reportagem conversou com quatro viajantes que acumulam dezenas de destinos em solitário: Letícia Pavim, Alessandra Stockler, Gabriela Procopio e Daniela Filomeno. Todas apontam medidas práticas para quem planeja embarcar nessa experiência, desde a escolha do destino até cuidados durante a estadia.

Escolha do destino e barreiras

Para iniciantes, a facilidade de comunicação é decisiva: dominar ao menos o inglês reduz a sensação de vulnerabilidade, segundo Letícia. As entrevistadas destacaram também a importância de enfrentar preconceitos sobre determinados países e respeitar costumes locais — às vezes adotando posturas discretas para não atrair atenção. Alessandra e Gabriela mencionaram que, em países com códigos culturais mais rígidos, o respeito a regras locais é prioridade.

As viajantes indicam destinos que consideram favoráveis para quem viaja sozinha: Vietnã, Uruguai, Noruega, Costa Rica, Estônia, Tailândia e África do Sul.

Primeiras impressões e segurança prática

O choque inicial de estar longe de casa é comum, lembram as entrevistadas. Para reduzir a vulnerabilidade na chegada, recomendam transfer reservado do aeroporto até a hospedagem e compartilhar localização em tempo real com alguém de confiança. Rede de apoio local — por exemplo, conversas informais em ambientes seguros entre mulheres — também aparece como estratégia para obter informações.

Daniela enfatiza a necessidade de pesquisa prévia sobre vacinas, exigências burocráticas e particularidades culturais e políticas do país a ser visitado. Planejamento e organização são apontados como essenciais para equilibrar liberdade e segurança.

Mulheres que viajam sozinhas: guia prático e experiências de quem já rodou o mundo

Imagem: Divulgação

Mentirinhas do bem e cuidados com publicações

As viajantes relatam recorrer a “mentirinhas do bem” para não expor a condição de estarem sozinhas a desconhecidos. Evitar dizer que viaja só e, em situações de risco, omitir informações pessoais são práticas citadas como medidas protetivas. Também há consenso em não postar registros em tempo real: Letícia conta que, em 2024, uma denúncia nas redes sociais sobre corrupção policial em Angola a deixou exposta no país após um vídeo viralizar — um episódio que a própria definiu como ingenuidade.

Além dos cuidados digitais, recomendações práticas incluem manter reserva financeira, usar pacote de internet e bateria portátil, compartilhar palavra-chave de segurança e tomar cuidado ao ingerir bebidas fora do controle pessoal.

Benefícios pessoais

As entrevistadas relatam ganhos de autoconfiança e autoconhecimento. Daniela destaca que a viagem solo exige aprender a equilibrar liberdade com atenção; Gabriela diz ter desenvolvido uma capacidade de leitura do ambiente e um “feeling” para riscos. Letícia, em seu acampamento de kung fu com rotina de mais de seis horas diárias de treino de segunda a sábado, resume a experiência como transformadora.

Com preparo e os cuidados indicados, as viajantes afirmam ser possível explorar o mundo com autonomia e segurança.

Guia de sobrevivência para mulheres que viajam sozinhas

  • Escolha destinos onde seja possível se comunicar em algum idioma local;
  • Conheça e respeite a cultura do país visitado;
  • Planeje a chegada até a hospedagem — esse é o momento de maior vulnerabilidade;
  • Evite dizer a estranhos que você está sozinha; use omissões ou informações seguras quando necessário;
  • Não publique registros em tempo real; espere alguns dias para compartilhar online;
  • Pesquise e organize a viagem para reduzir imprevistos;
  • Carregue uma reserva de dinheiro;
  • Viaje com pacote de internet e bateria portátil;
  • Compartilhe sua localização em tempo real e combine uma palavra-chave de segurança com alguém de confiança;
  • Se consumir álcool, cuide do seu copo e da sua bebida.

Com informações de Forbes