Um grupo de pesquisadores japoneses identificou um novo vírus gigante de DNA, batizado de ushikivírus, que infecta amebas do gênero Vermamoeba. A descoberta, publicada no periódico Journal of Virology em janeiro de 2026, pode oferecer informações valiosas sobre o papel dos vírus na evolução das células eucarióticas e, por extensão, na origem da vida na Terra.

Vírus gigantes e a hipótese da eucariogênese viral

Os vírus sempre desafiaram a classificação biológica, pois são formados apenas de material genético e carecem dos mecanismos de síntese proteica necessários à vida celular. Desde o início do século XXI, cientistas como Masaharu Takemura (Universidade de Ciências de Tóquio) e Philip Bell (Universidade Macquarie) têm explorado a hipótese de que o núcleo das células eucarióticas teria se originado de um grande vírus de DNA que se integrou a um ancestral das arqueias—a chamada eucariogênese viral. Em 2003, a identificação de vírus gigantes de DNA reforçou essa proposta, pois muitos deles formam “fábricas virais” membranosas dentro da célula hospedeira, lembrando a estrutura do núcleo e sugerindo laços evolutivos antigos.

Caracterização do ushikivírus

No novo estudo, Takemura e colaboradores do Instituto Nacional de Ciências Naturais do Japão isolaram o ushikivírus em amostras de água do Lago Ushiku, na província de Ibaraki. O vírus apresenta similaridades estruturais com o gênero Medusavirus, mas também traz características inéditas, como a indução de crescimento anormal das células hospedeiras e a presença de organelas virais ainda não descritas em outros parentes próximos.

Um aspecto marcante do ushikivírus é o seu modo de replicação. Enquanto alguns vírus gigantes preservam a membrana nuclear para se multiplicar, esse agente rompe o envelope do núcleo da ameba e forma novas partículas virais diretamente no citoplasma. Segundo os autores, essa estratégia híbrida pode representar um elo evolutivo entre diferentes linhagens de vírus gigantes, refletindo adaptações a distintos hospedeiros ao longo de milhões de anos.

Implicações evolutivas e aplicabilidade prática

A comparação entre o ushikivírus e outras espécies de vírus gigantes amplia o entendimento sobre a diversificação desses organismos e reforça a ideia de que eles tiveram influência central na formação das células eucarióticas. Além disso, amebas como Acanthamoeba podem causar encefalite amebiana em humanos. Conhecer em detalhes o ciclo de infecção de vírus gigantes pode abrir caminhos para o desenvolvimento de novas abordagens de controle e tratamento dessas doenças.

Imagem: Divulgação

A pesquisa sobre o ushikivírus segue em andamento, com trabalhos futuros voltados à análise genômica aprofundada e à avaliação de possíveis aplicações biotecnológicas.

Com informações de Olhardigital