A missão Artemis II, lançada na última quarta-feira (01), realizou a injeção translunar após completar duas voltas ao redor da Terra, colocando a cápsula Órion em uma trajetória circumlunar de livre retorno. A manobra, executada pelo motor AJ10 do Módulo de Serviço Europeu, acelerou a nave a cerca de 38 mil km/h e promoveu uma rota que permite o retorno à Terra sem nova propulsão, caso seja necessário.

TRANSMISSÃO: Band

A trajetória de livre retorno — conhecida por desenhar uma órbita alongada em forma de “8” sob a influência combinada da gravidade terrestre e lunar — foi escolhida por oferecer maior segurança à tripulação. O impulso inicial do motor principal do Módulo de Serviço Europeu foi aplicado por cinco minutos e 50 segundos, colocando a Órion em rota circumlunar.

Como funciona a órbita de livre retorno

Esse tipo de trajetória depende da inércia da nave e das forças gravitacionais dos dois corpos envolvidos, permitindo que a espaçonave complete o percurso de volta à Terra sem novas queimas de motor. No caso da Artemis II, o AJ10, derivado de motores usados em ônibus espaciais e com linhagem similar aos sistemas empregados nas missões Apollo, forneceu a energia necessária para a inserção translunar.

O conceito de livre retorno foi estudado já em 1963 por Arthur Schwaniger, que tratou o problema como uma versão do chamado problema restrito dos três corpos. Utilizando métodos desenvolvidos por Euler e Poincaré, Schwaniger mapeou famílias de trajetórias com propriedades geométricas específicas — trabalhos que serviram de base para as trajetórias das missões Apollo e agora do Programa Artemis.

Existem variações dessa rota conforme o ponto de maior aproximação à Lua e o sentido de revolução. Quando a maior aproximação ocorre no lado oculto lunar fala-se em trajetória circumlunar; se for no lado voltado para a Terra, trata-se de uma trajetória cislunar. O percurso pode ainda ser prógrado, quando acompanha a direção de órbita da Lua, ou retrógrado, quando vai no sentido oposto. Apesar das diferenças geométricas, todas as versões oferecem a possibilidade de retorno natural ao planeta.

Desde a Apollo 8, as trajetórias de livre retorno foram empregadas como medida de segurança. Em missões posteriores, como a Apollo 13, a rota foi determinante: após uma explosão em um tanque de oxigênio que incapacitou o Módulo de Serviço, a nave usou a trajetória de livre retorno, com correções pontuais, para contornar a Lua e regressar com segurança à Terra.

Imagem: Trajetória de livre retorno – Trajetória de livre retorno

Embora ofereça um caminho garantido de retorno, a trajetória não elimina a necessidade de pequenas correções ao longo da viagem, decorrentes de pequenas imperfeições no lançamento e em manobras orbitais. Ainda assim, essa redundância adiciona uma camada de segurança considerada essencial para missões tripuladas de longa distância.

Além do aspecto técnico, a adoção da trajetória reforça uma continuidade entre as soluções utilizadas durante as missões Apollo e as opções adotadas pela Artemis, que reutiliza conceitos de propulsão e de planejamento de rota. O programa atual prioriza segurança e confiabilidade enquanto busca estabelecer presença lunar sustentável e preparar operações futuras, incluindo trajetórias que podem levar à exploração de Marte.

Ao acompanhar a Artemis II descrever sua trajetória circumlunar, a operação aplica novamente leis da física e técnicas desenvolvidas há décadas, adaptadas com tecnologia contemporânea, para garantir o retorno seguro da tripulação ao final da missão.

Com informações de Olhardigital