O astronauta Victor Glover, da missão Artemis 2, relatou dificuldades visuais enquanto fazia observações da Lua a partir da cápsula Orion. Segundo Glover, o contraste entre a superfície lunar muito iluminada e a escuridão dentro da cabine tem causado cansaço ocular e dificuldade para alternar rapidamente o foco entre as janelas e as tarefas internas.

Em um relato durante a missão, o piloto afirmou ter dificuldade para voltar a executar atividades como operar câmeras, microfones e gerenciar a logística da cabine após olhar para o exterior. “Tem sido apenas um exercício”, disse Glover. “É difícil lidar com tudo isso usando óculos e ainda ter que esperar meus olhos se adaptarem.” Glover, que usa óculos, tem percebido esses efeitos com maior intensidade.

Para reduzir o esforço visual, a tripulação adotou medidas práticas, entre elas o ajuste da luminosidade interna da cabine e o revezamento nas observações lunares, estratégia que busca evitar a sobrecarga provocada pela alternância contínua entre luz intensa e escuridão.

Relação com microgravidade e pesquisa sobre SANS

O cansaço ocular observado está relacionado aos efeitos da microgravidade no organismo. A ausência da gravidade terrestre provoca deslocamento de fluidos do corpo para a cabeça, potencialmente elevando a pressão intracraniana e provocando alterações na visão, fenômeno estudado como a síndrome neuro-ocular associada a voos espaciais (SANS), identificada em 2011.

Estudos indicam que a SANS engloba alterações oculares e cerebrais provocadas principalmente pelo acúmulo de sangue e líquido cefalorraquidiano na cabeça. Entre os sinais observados estão o inchaço do nervo óptico, o achatamento da parte posterior do olho, dobras na retina e modificações na forma de foco visual, que podem prejudicar tarefas que exigem precisão.

Uma pesquisa publicada no Journal of Engineering in Medicine and Biology aponta que cerca de 70% dos astronautas que passam entre seis meses e um ano na Estação Espacial Internacional apresentam mudanças relevantes na visão. Dados da NASA também indicam que aproximadamente 70% dos tripulantes da ISS desenvolvem algum grau de inchaço na parte posterior dos olhos. A agência classifica a SANS como um “red risk”, ou risco crítico, dado o potencial agravamento em missões de longa duração.

Algumas alterações podem surgir após cerca de dez dias no espaço, mas os efeitos mais marcantes costumam ocorrer em missões de aproximadamente seis meses. Viagens até Marte podem durar cerca de nove meses em cada direção, ampliando a exposição dos astronautas à microgravidade. Nem todos desenvolvem a síndrome; cerca de dois terços apresentam mudanças na acuidade visual, sobretudo para visão de perto, e em aproximadamente um quinto dos casos os sintomas são mais severos e caracterizam a SANS.

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Segundo o especialista em optometria aeroespacial Tyson Brunstetter, “Ninguém teve perda permanente de visão por conta da SANS”. A maioria das alterações tende a regredir após o retorno à Terra, embora algumas mudanças possam persistir e exigir correção com óculos; casos severos de inchaço no nervo óptico costumam regredir em até 12 meses.

Investigações sobre causas e soluções

Apesar de mais de dez anos de estudos, as causas completas da SANS ainda não estão totalmente esclarecidas. O deslocamento de fluidos é apontado como principal fator, mas não explica por que somente alguns astronautas desenvolvem formas graves. Pesquisadores também avaliam o papel de níveis elevados de dióxido de carbono na cabine, alterações metabólicas e fatores genéticos. Estudos sugerem que níveis maiores de homocisteína, associados a deficiências de vitaminas como ácido fólico e B12, podem aumentar a predisposição ao problema.

Para prevenir ou mitigar a SANS, a NASA e outras instituições investigam suplementos nutricionais, intervenções farmacológicas e dispositivos mecânicos que redistribuam fluidos corporais. Entre as abordagens estudadas estão equipamentos de pressão negativa na parte inferior do corpo, braçadeiras compressivas nas coxas e simulações em Terra, como o repouso com inclinação de seis graus. Pesquisas também avaliam soluções mais complexas, como a geração de gravidade artificial por meio de centrifugação.

O pesquisador Santiago Costantino afirma que entender melhor as mudanças biomecânicas nos olhos é essencial para identificar tripulantes com maior risco e desenvolver estratégias de proteção. Com missões à Lua e a Marte em planejamento, a busca por respostas para garantir a saúde visual dos astronautas segue em destaque.

Com informações de Olhardigital