Empresas têm investido em programas para promover liderança feminina, metas de representatividade e revisões de processos seletivos, enquanto cresce o debate sobre o papel da inteligência artificial para tornar decisões mais objetivas. Ainda assim, uma questão menos discutida é quando, na trajetória de vida, uma mulher passa a crer que determinados espaços talvez não sejam para ela.

Essa dúvida aparece no centro da pesquisa “Deixa a Mulher Latina Sonhar”, conduzida pela Casa Mundo Market Intelligence em parceria com a Natura. O estudo ouviu mais de 300 mulheres no Brasil, México e Colômbia e identificou padrões de comportamento que apontam para um aprendizado precoce sobre até onde expressar ambição é aceitável.

Dois números se destacam: 44% das entrevistadas disseram ter medo de parecer exageradas ou iludidas ao falar sobre seus objetivos; 32% afirmaram sentir que alguns objetivos não são para pessoas com perfil, origem ou realidade semelhantes às suas. Esses dados indicam que muitas oportunidades são descartadas antes mesmo de serem buscadas, na própria imaginação de quem poderia pleiteá‑las.

O estudo sugere ainda que, enquanto homens costumam ser incentivados a expor conquistas como sinal de confiança, muitas mulheres internalizam a ideia de que demonstrar ambição pode ser interpretado como excesso. Esse padrão se reflete em comportamentos profissionais: hesitação ao declarar interesse em cargos de liderança, minimização de vitórias e sensação de que é preciso provar mais preparo do que os pares antes de aceitar uma oportunidade.

MULHERES APRENDEM A MODERAR A PRÓPRIA AMBIÇÃO

Os resultados apontam que a desigualdade de gênero tem origem em expectativas formadas muito antes do ingresso no mercado de trabalho. Para grande parte das entrevistadas, o silêncio sobre sonhos e a moderação da ambição são aprendizados sociais que acompanham a vida adulta e influenciam decisões profissionais.

Não se trata de falta de competência, segundo a pesquisa, mas da maneira como confiança e autoestima são construídas ao longo do tempo.

A QUESTÃO DO VIÉS ALGORÍTMICO

A pesquisa também relaciona esse contexto com o uso de tecnologia. A doutoranda Humberta Silva, da USP, constata que ferramentas de inteligência artificial aprendem a partir de dados gerados pela sociedade. Se esses registros reproduzem décadas de desigualdades, há risco de que sistemas automatizados reforcem padrões históricos em processos como recrutamento, avaliação de desempenho e desenvolvimento de talentos.

Por isso, discutir vieses algorítmicos envolve não apenas adoção de novas tecnologias, mas revisão criteriosa de dados, diversidade nas equipes que desenvolvem soluções e atenção ao contexto social que alimenta os sistemas. Ainda assim, a pesquisa destaca que nenhuma tecnologia resolverá por si só uma distorção que começa quando meninas aprendem a falar mais baixo sobre seus sonhos.

Construir ambientes em que mulheres não sintam necessidade de reduzir suas ambições é, segundo o levantamento, condição para aproveitar plenamente o potencial feminino em empresas e organizações. Sem isso, parte do talento permanece subutilizada e difícil de ser resgatada apenas por intervenções tecnológicas.

Com informações de Fastcompanybrasil