O acordo entre Mercosul e União Europeia, assinado em 17/01/2026, entrou em vigor de forma provisória e cria uma área de livre comércio que reduz ou elimina gradualmente tarifas sobre a maior parte dos produtos trocados entre os dois blocos. O tratado conecta centenas de milhões de consumidores na Europa e na América do Sul e impõe, além de benefícios tarifários, requisitos técnicos, ambientais e regulatórios para o acesso ao mercado europeu.

Na prática, a redução tarifária dura anos e vem acompanhada de cronogramas distintos para cada lado. Segundo a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), a União Europeia eliminará tarifas para cerca de 93% dos produtos do Mercosul em até dez anos, enquanto o Mercosul prevê reduzir tarifas sobre aproximadamente 91% dos produtos europeus ao longo de até 15 anos. O acordo também prevê cotas tarifárias, períodos de transição e mecanismos de salvaguarda para proteger setores sensíveis.

Impactos setoriais e condições de acesso

O tratado amplia o mercado brasileiro, mas o acesso efetivo tende a depender da capacidade de atender a padrões de produção, rastreabilidade e conformidade. A Confederação Nacional da Indústria (CNI) destaca que cerca de 3.000 produtos brasileiros deixarão de pagar tarifas na UE, sendo mais de 90% desses produtos ligados à indústria de transformação. Setores como máquinas e equipamentos, alimentos e metalurgia estão entre os mais afetados.

O agronegócio brasileiro já opera em níveis de exigência próximos aos europeus em alguns segmentos, mas continua sujeito a restrições sanitárias que podem limitar ganhos. Para o professor Leandro Gilio, do Insper Agro Global, o acordo tende a reforçar demandas por rastreabilidade e monitoramento ao longo das cadeias produtivas, estimulando adoção de tecnologias de certificação e controle.

Entre as normas que ganham importância está o EUDR (Regulamento da União Europeia para Produtos Livres de Desmatamento), que exige comprovação de origem e amplia requisitos ambientais. Uma lista preliminar da Comissão Europeia, em sua versão atual, não inclui o Brasil entre países habilitados a exportar certos produtos de origem animal sob novas regras sobre o uso de antimicrobianos, medida que pode reduzir benefícios esperados caso seja mantida.

Indústria, inovação e condicionantes internos

No setor industrial, o acordo cria uma oportunidade de reposicionamento internacional, segundo a CNI, mas também expõe empresas a competição mais intensa. O Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) afirma que a modernização industrial, impulsionada pela política da Nova Indústria Brasil (NIB), pode ser complementada pelo tratado.

17/01/2026 — Acordo Mercosul–UE amplia exigências tecnológicas e regulatórias

Imagem: Divulgação

Especialistas consultados pelo Olhar Digital avaliam que a integração com mercados mais avançados pode acelerar aprendizado e incorporação de práticas tecnológicas. Arthur Igreja ressalta a importância do intercâmbio para a evolução tecnológica. Por outro lado, o professor Álvaro Machado Dias, da Unifesp, alerta que restrições de crédito e a Selic elevada podem limitar investimentos: 23% dos industriais declararam à CNI que não pretendem investir em 2026, o que aumenta o risco de modernização via importação de tecnologia pronta, sem desenvolvimento endógeno.

Áreas apontadas com potencial de inserção internacional incluem bioeconomia, agricultura de precisão e minerais estratégicos, onde o Brasil possui vantagens relacionadas a recursos naturais e capacidade produtiva. No entanto, especialistas destacam que o avanço dependerá de investimentos, coordenação entre empresas e instituições de pesquisa, e capacidade de transformar conhecimento em produtividade.

Além do MDIC, o Olhar Digital também procurou os ministérios da Agricultura e Pecuária (Mapa) e da Fazenda, mas não recebeu retorno até a publicação desta reportagem.

Com informações de Olhardigital