Um edifício de fachada espelhada visto por quem passa pelo Rodoanel Mário Covas, em Barueri (SP), é um dos exemplos físicos do que move a economia digital: data centers. Esses centros de processamento não são abstrações — exigem terrenos, energia, água e equipamentos de alta performance. Desde 2025, o governo federal tentou atrair investimentos para transformar o país em um polo desse setor, mas um impasse legislativo e preocupações socioambientais criaram um dilema entre atração de capitais e riscos locais.
O que são e como funcionam
Data centers abrigam servidores, sistemas de armazenamento e redes que mantêm ativos serviços bancários, redes sociais e plataformas públicas. A chegada da inteligência artificial aumentou a demanda por GPUs e chips especializados, além de armazenamento NVMe e redes de alta largura de banda. Esse conjunto gera calor intenso, que levou ao uso de resfriamento líquido em larga escala. Projeções da IBM apontam que a IA pode elevar o consumo elétrico desses complexos entre 160% e 165% nos próximos anos, e surgiram os chamados data centers de hiperescala, capazes de interligar dezenas de milhares de servidores.
Panorama nacional
O Brasil possui 206 data centers em operação, concentrados no Sudeste. Dados do Data Center Map indicam 59 instalações em São Paulo, 27 em Campinas, 23 no Rio de Janeiro, 14 em Porto Alegre e 11 em Fortaleza. Aproveitando a matriz elétrica majoritariamente renovável do país, o Ministério da Fazenda apresentou em 2025 a Política Nacional de Data Centers (PNDC). O instrumento financeiro central dessa iniciativa foi o Redata, regime criado pela Medida Provisória nº 1.318/2025 para suspender IPI, PIS, Cofins e Imposto de Importação por cinco anos na importação de servidores de alta performance, sujeito a contrapartidas como energia 100% limpa, padrões de eficiência hídrica, 2% do valor incentivado em P&D local e reserva de 10% da capacidade para o mercado interno.
Redata e o impasse legislativo
A Medida Provisória que instituiu o Redata caducou no Senado em 25 de fevereiro de 2026, deixando o setor em um vácuo jurídico. O Executivo tentou salvar o benefício por meio do Projeto de Lei 278/26, aprovado na Câmara, mas o texto travou na mesa do presidente do Senado, Davi Alcolumbre, que alegou falta de tempo hábil para análise. Além disso, o Artigo 29 da Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) de 2026 proíbe a criação de benefícios fiscais no ano corrente, o que impede, na prática, o uso do espaço orçamentário de R$ 5,2 bilhões previsto na proposta orçamentária para financiar a renúncia fiscal. O governo afirma dispor de alternativas, como linhas de financiamento do BNDES — incluindo crédito de R$ 2 bilhões para “data centers verdes” — e programas de fomento à inovação.
Riscos ambientais e sociais
Críticos alertam que grandes data centers pressionam recursos locais de energia e água, podem exigir investimentos em transmissão e provocar impactos socioambientais nas comunidades próximas. Estimativas apontam que o consumo inicial de água para resfriamento de um grande projeto pode chegar a cerca de seis milhões de litros. Há ainda preocupações sobre a priorização do abastecimento em situações de escassez e sobre o repasse de custos de infraestrutura à sociedade.
Imagem: Divulgação
O caso Pecém
No Complexo Industrial e Portuário do Pecém (CIPP), no Ceará, um projeto conduzido pela Omnia WN Holding, destinado a ser alugado pela ByteDance (dona do TikTok), ilustra o embate. O empreendimento ocupa 68 hectares, prevê dois prédios com 20 data halls, capacidade inicial de 200 MW de TI, pico bruto de 300 MW e expansão projetada para até 1 GW. O investimento declarado é de US$ 39 bilhões ao longo de dez anos, com foco na exportação de processamento de dados. O licenciamento ambiental do projeto foi alvo de recomendações conjuntas do Ministério Público Federal (MPF) e da Defensoria Pública da União (DPU) em 19 de maio de 2026, que identificaram faltas e omissões no procedimento conduzido pela Semace. Órgãos federais e empresas solicitaram prorrogação de prazos e receberam prazo até o final de julho de 2026 para responder às exigências. Comunidades indígenas da região, como o povo Anacé, e ativistas bloquearam rodovias e ocuparam canteiros de obra em abril e junho de 2026 em protesto contra a forma como as consultas foram conduzidas.
O impasse político entre acelerar a atração de investimentos privados — com uma estimativa de até R$ 2 trilhões em investimentos na próxima década em cenário favorável — e garantir controles socioambientais mais rigorosos mantém o tema em debate. Do ponto de vista legal, especialistas apontam que o Redata não se restabelece automaticamente: depende de nova aprovação legislativa para oferecer segurança jurídica às empresas interessadas.
Com informações de Olhardigital

Gudyê GR6 é editor-chefe e especialista em tendências musicais e entretenimento na GR6, a maior produtora de funk do Brasil. Com anos de experiência no mercado fonográfico, Gudyê lidera a equipe de conteúdo trazendo as últimas notícias sobre música, cultura urbana. Autor do Post: Gudyê GR6