NOVA YORK — Um número crescente de pessoas com 65 anos ou mais tem decidido trocar casas no interior e subúrbios pela vida na cidade de Nova York, em busca de proximidade com filhos, melhor atendimento médico e acesso a museus, teatros e restaurantes. Em 2023, 15.705 idosos se mudaram para a cidade, um aumento de 40% em relação a 2019, segundo análise de dados do censo feita por John Mollenkopf, professor do Graduate Center da City University of New York.

Aos 65 anos, Bob Krinsky deixou São Francisco e foi para Williamsburg, no Brooklyn, para ficar mais perto dos filhos após o fim de um casamento de 30 anos. Instalado em um apartamento de dois quartos no 47º andar com vista para Manhattan, ele paga quase US$ 11.000 por mês de aluguel. Krinsky assumiu papel ativo na vizinhança: lidera corridas no cais do Brooklyn e se descreve como o CVO do clube, “diretor de boas vibrações”.

Entre os motivos citados pelos recém-chegados estão a possibilidade de ajudar nos cuidados dos netos, a conveniência de não depender de carro e o acesso a serviços e entretenimento que consideram incomparáveis em outros locais. “Há muitos idosos que não querem ficar confinados em um lar de repouso”, disse Jonathan Bowles, diretor executivo do Center for an Urban Future. “Para eles, Nova York é um ótimo antídoto. É um lugar onde eles podem realmente viver uma segunda vida.”

Muitos desses migrantes fazem parte da geração baby boomer e recorrem aos recursos financeiros acumulados ao longo da vida para bancar imóveis e estadia na cidade. Corretores relatam aumento da participação de compradores mais velhos: segundo Melissa Leifer, da Keller Williams NYC, atualmente eles representam cerca de 40% das vendas de apartamentos, contra aproximadamente 15% há uma década.

Há exemplos concretos dessa tendência. Suzy Curley, de 79 anos, mudou-se para Manhattan após a morte do marido em 2023. Ela comprou um apartamento de um quarto por US$ 1,5 milhão em Greenwich Village, financiado pela venda de sua casa em Fort Worth, no Texas, e de uma casa de fim de semana em Bluff Dale. Curley passou a frequentar o Union Square Greenmarket, aulas de balé no Broadway Dance Center e cursos na Universidade de Nova York, e relata surpresa e satisfação por poder morar na cidade.

O casal Amy e Dr. Paul Silverman, de 73 e 74 anos, também trocou uma residência planejada para aposentadoria em Asheville, na Carolina do Norte, por um apartamento de dois quartos em Boerum Hill adquirido por US$ 2,3 milhões. A mudança ocorreu após a perda da capacidade de dirigir de Amy, que tem degeneração macular, e por motivo de acesso a melhores serviços e à família, a cerca de 2.200 passos do filho.

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Apesar dos casos de sucesso, a movimentação não é unânime: Mollenkopf aponta que, ainda em 2023, cerca de 22.355 moradores idosos deixaram Nova York, em muitos casos em busca de destinos mais quentes e de menor custo. Além disso, o custo de vida e a crise de acessibilidade da cidade tornam a mudança inviável para aposentados com renda fixa; o Centro para um Futuro Urbano indica que quase 1 em cada 5 idosos vive em condição de pobreza.

No dia a dia, os novos moradores mais velhos relatam adaptação social e integração com vizinhos mais jovens. Krinsky, por exemplo, participa de ligas esportivas via aplicativo e de cursos de improvisação, e acabou virando referência para moradores da faixa dos 20 e 30 anos. Outros descrevem trocas de ajuda mútua, convites para jantares e atividades comunitárias que reforçam o vínculo entre gerações.

A mudança de vida de idosos para Nova York ilustra uma combinação de fatores econômicos, sociais e pessoais: recursos acumulados ao longo da vida, laços familiares, oferta cultural e médica e a busca por uma rotina mais ativa e conectada.

Com informações de Infomoney