O Casino resolveu se desfazer de sua participação no GPA, controladora da rede Pão de Açúcar, e optou por colocar ações à venda no mercado em vez de negociar o lote de pouco mais de 20% diretamente com um investidor estratégico, apurou o InvestNews. O grupo francês foi controlador do GPA entre 2012 e 2024.

A decisão levou o GPA a recorrer à Justiça para impedir novas operações do antigo controlador. A liminar, concedida em 17 de abril, surge depois de o Casino ter vendido em bloco cerca de 2% das ações do GPA, transação avaliada em aproximadamente R$ 22 milhões, reduzindo a participação do grupo de 22,5% para 20,4%.

Em setembro do ano anterior, durante visita ao Brasil do CEO Philippe Palazzi, interlocutores do Casino afirmaram ao InvestNews que não havia pressa para a venda, alegando existência de “valor significativo travado no preço de tela” e demanda de compradores estratégicos. Sete meses depois, a posição do grupo mudou.

Consolidação de novos controladores e perda de influência

A mudança de estratégia do Casino coincide com a consolidação da família Coelho Diniz e do bilionário Silvio Tini no bloco de controle do GPA. Após atingirem 24,6% do capital em agosto de 2025, os acionistas ligados aos Diniz elegeram André Coelho Diniz como presidente do conselho em outubro. Desde fevereiro, a holding de Tini, a Bonsucex, chegou a cerca de 24% das ações, tornando-se o segundo maior acionista.

Sem representação relevante no conselho e com dois investidores relevantes influenciando a direção da companhia, a fatia do Casino perdeu capacidade de barganha. “Hoje a participação do Casino no GPA não tem mais o mesmo ‘sex appeal’”, disse uma das fontes consultadas.

Fontes próximas ao grupo afirmam que o objetivo do Casino é sair da América Latina, completando vendas de ativos já realizadas no Uruguai, na Argentina e na Colômbia. A participação passou a ser vista como marginal diante da reestruturação na França, onde a varejista encerrou 2025 com dívida líquida de € 1,5 bilhão. O processo de recuperação liderado pelo bilionário tcheco Daniel Křetínský desde 2024 diluiu antigos acionistas e afastou o controle do histórico Jean-Charles Naouri.

Implicações judiciais e fiscais

A disputa jurídica do GPA não se limita à tentativa de barrar vendas. A liminar está ligada a uma arbitragem na Câmara de Comércio Internacional sobre um auto de infração da Receita Federal relativo à dedução de ágio no Imposto de Renda entre 2007 e 2013, período da transição de controle entre a família Diniz e o Casino. O GPA sustenta que, se perder na Receita, tanto o Casino quanto a Península Participações — holding da família de Abílio Diniz — devem ser responsabilizados pelo passivo atribuível ao período.

Imagem: Divulgação

Em abril do ano passado, o Casino retirou garantias no processo, justificando sua recuperação judicial na França; o GPA contestou a medida. A liminar obtida no mês passado determinou a retenção de recursos em conta judicial até a conclusão do julgamento tributário. O passivo estimado relacionado a esse caso é superior a R$ 2,5 bilhões.





Hoje, a participação do Casino no GPA é avaliada em cerca de R$ 240 milhões. Entre as discussões em curso no GPA está a possível remoção da cláusula de poison pill do estatuto, dispositivo que obriga oferta pública a quem ultrapassar 25% do capital. A retirada desse mecanismo facilitaria uma consolidação de controle por parte da família Coelho Diniz ou de Tini sem a necessidade de lançar uma OPA.

O desfecho da disputa judicial e o andamento das vendas de ações definirão os próximos passos do processo de saída do Casino do grupo varejista.

Com informações de Investnews